É quando estão mais de trinta e cinco graus e o nosso corpo parece derreter lentamente dentro de um autocarro apinhado que fechamos os olhos e desejamos que o suor, o nosso e o dos outros, não existisse. E afinal, porque é que existe, para que serve, e como devemos lidar com ele? Vasco Coelho Macias, dermatologista na Clínica Ibérico Nogueira, conversou com a Miranda e respondeu a todas as suas perguntas.

Antes de mais, o que é que realmente acontece ao nosso corpo quando transpiramos?

A transpiração tem como função essencial a regulação da temperatura corporal. Quando a temperatura do corpo aumenta, as glândulas sudoríparas produzem o suor que, ao evaporar da superfície cutânea, contribui para o seu arrefecimento. Nos adultos existem entre 2 a 5 milhões de glândulas sudoríparas distribuídas pela pele, estando apenas ausentes na mucosa genital, lábios e canal auditivo externo, e são capazes de produzir até 0.5 litros de suor por hora. Os atletas ou pessoas aclimatizadas a regiões quentes são capazes de produzir até 3-4 litros de suor por hora. Em pessoas saudáveis o suor é composto por 99% de água.

No caso da transpiração excessiva, como é diagnosticada?

A transpiração excessiva é um problema designado hiperhidrose e pode ter um marcado impacto emocional, psico-social e até profissional. Quando não é possível identificar uma causa subjacente designa-se hiperhidrose primária, que corresponde à forma mais comum, e frequentemente surge durante a infância/adolescência. As áreas mais frequentemente envolvidas são as palmas, plantas e axilas e, habitualmente, a transpiração é desencadeada pelo stress e factores emocionais, sendo agravada pelo calor. Em oposição, a hiperhidrose secundária pode ser devida a problemas genéticos, neoplasias ou infecções.

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O primeiro passo [do diagnóstico] consiste na diferenciação entre hiperhidrose primária e secundária. Para isso deverá ser efetuada uma história clínica e exame clínico minuciosos. Nos casos em que há suspeita de hiperhidrose secundária são solicitadas análises clínicas e exames radiológicos de acordo com cada situação. Existem alguns métodos que permitem quantificar a transpiração, mas são habitualmente utilizados em contexto de estudos clínicos.

Que tipos de tratamento existem?

Atualmente estão disponíveis diversas opções de tratamento para a hiperhidrose. A escolha depende do segmento corporal afectado, extensão e gravidade da doença. Os anti-transpirantes tópicos contêm geralmente sais de alumínio. Devem ser aplicados durante a noite e são a primeira escolha para as formas localizadas ligeiras a moderadas. Podem ser aplicados em qualquer superfície corporal mas têm o inconveniente de poderem causar irritação local.

Para as formas localizadas às palmas e/ou plantas que não respondem aos anti-transpirantes, a iontoforese pode ser uma boa alternativa. Existem também adaptadores para as axilas, mas habitualmente são menos práticos e eficazes. Este tratamento é feito no domicílio, através da compra do equipamento, e utiliza corrente elétrica de baixa intensidade para causar a obstrução dos canais das glândulas sudoríparas, reduzindo, desta forma, a transpiração. É geralmente um tratamento eficaz, realizado 2 ou 3 vezes por semana, com efeitos secundários mínimos: habitualmente uma ligeira sensação de formigueiro durante o tratamento. O seu dermatologista pode aconselhá-la quanto à escolha do equipamento e qual a melhor forma de delinear o seu tratamento.

Para os casos de hiperhidrose generalizada pode recorrer-se a medicação oral; no entanto, quando são necessárias doses mais elevadas, os efeitos secundários (secura dos olhos e boca, insónias, palpitações, dificuldades urinárias e hipertensão) podem tornar-se intoleráveis e levar à interrupção do tratamento.

A toxina botulínica A recebeu aprovação para o tratamento da hiperhidrose em 2004 e tem sido utilizada com sucesso para o tratamento da hiperhidrose primária axilar, palmo/plantar e facial. A administração é feita através de microinjeções nas camadas superficiais da pele e consegue-se uma quase ausência de transpiração que dura entre 4 a 6 meses. Pessoalmente, pela sua elevada eficácia e segurança, considero esta a melhor opção para as formas de hiperhidrose axilar que não respondem aos anti-transpirantes. A utilização nas palmas e plantas requer anestesia local e é geralmente ligeiramente menos eficaz.

O equipamento miraDry® consiste num sistema de micro-ondas que destrói as glândulas sudoríparas e está aprovado para o tratamento da hiperhidrose axilar. É realizado sob anestesia local e pode provocar alteração da sensibilidade que, normalmente, reverte em meses.

Finalmente, nos casos refratários, podem ser utilizadas técnicas cirúrgicas. A excisão ou destruição local por lipoaspiração é uma opção para a hiperhidrose axilar. A simpatectomia transtorácica é um procedimento cirúrgico que consiste na destruição ou secção dos nervos responsáveis pela enervação das glândulas sudoríparas que pode ser utilizado nos casos de hiperhidrose palmoplantar grave e resistente aos demais tratamentos. Para além dos riscos associados à cirurgia, há o risco de recidiva dos sintomas e de hiperhidrose compensatória (forma de hiperhidrose em que as glândulas sudoríparas de uma área ficam hiperativas na tentativa de compensar a ausência de transpiração noutra – pode ocorrer em até 80% dos doentes submetidos a simpatectomia transtorácica).

Quando sabemos que vamos transpirar, como numa ida ao ginásio, que cuidados devemos ter com a pele?

  • Remover a maquilhagem de forma a prevenir a oclusão dos poros e evitar a proliferação bacteriana;
  • Ao realizar atividades ao ar livre, se tiver pele com tendência oleosa, deverá optar por um protetor solar oil-free;
  • As pessoas com cabelo comprido deverão prendê-lo, de forma a afastá-lo da face, evitando que a oleosidade do cabelo e eventuais produtos de styling (gel, ceras, etc) possam acumular-se na pele;
  • Evitar o contacto das mãos com a face, de forma a evitar a contaminação com as bactérias e sujidade acumulada;
  • Utilizar uma toalha para limpar o suor da face;
  • Usar peças de vestuário leves e de tecido transpirável;
  • Depois de transpirar é importante fazer uma correcta higiene.

Em termos de produtos para a transpiração, qual é a diferença entre desodorizantes e anti-transpirantes?

Os desodorizantes são produtos que eliminam ou mascaram o odor da transpiração que é causado pela degradação do suor pelas bactérias da pele. Contêm habitualmente perfumes e substâncias antibacterianas que não têm qualquer interferência na quantidade de suor produzida.
Por sua vez, os anti-transpirantes são produtos que se aplicam na pele e diminuem a quantidade de suor produzido.

Existem ingredientes que devemos evitar nesse tipo de produtos? Porquê?

Apesar de, na década de 60, terem surgido alguns estudos que levantaram suspeitas sobre uma eventual ligação entre a utilização de sais de alumínio nos anti-transpirantes e a Doença de Alzheimer, estudos mais recentes não conseguiram sustentar essa hipótese. Actualmente, na ausência de evidência científica ou médica, não se considera que o alumínio possa estar na génese deste tipo de demência.
Outra preocupação recorrente é a eventual ligação destes sais com o cancro de mama. No entanto, de acordo com algumas das principais organizações mundiais de Oncologia (ex: Sociedade Americana de Oncologia e Organização Britânica de Cancro da Mama), não existe evidência científica que comprove e valide esta preocupação. Pelo contrário, em 2002 um estudo com mais de 1500 mulheres não encontrou relação entre cancro da mama e uso de desodorizantes, anti-transpirantes ou remoção de pelos com lâmina. Desta forma, perante a inexistência de estudos conclusivos, não é possível legitimar os receios manifestados.

Desodorizantes e anti-transpirantes para combater o calor

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