Não me lembro da primeira vez que me cruzei com a Helena, mas sei de cor que todas a memórias que tenho com ela envolvem sempre uma atenção e simpatia que fogem à norma de uma indústria tantas vezes 'fechada' a sentimentos. Conhecemo-nos em trabalho, onde o seu talento imensurável e criatividade estão à vista de todos os que se esbarram com ela, quer nas capas de revistas como a Vogue, Máxima e GQ, quer nos desfiles da ModaLisboa, onde coordena a parte capilar. Mas, quem conhece isso quase que perde o seu melhor, que vai além das imagens que habilmente produz. Para se ser uma profissional de mão cheia, é preciso algo que não é estático nem se aprende numa escola de formação. Falo de um amor tremendo, à profissão, que estima e impulsiona, e a todas as pessoas com quem se cruza, a quem ensina e a quem as suas mãos chegam. Há um respeito, uma sensibilidade e um carinho enorme de Helena por cada uma das suas clientes, e isso nota-se pela agenda sempre preenchida da Griffehairstyle, que é sua e, no final do dia, é de todos, porque além de um salão é acima de tudo um espaço de partilha de emoções (ou não fosse o cabelo um elemento que mexe com o nosso amor-próprio). Embaixadora da L'Oréal Professionnel, vencedora do prémio Melhor Cabeleireiro, entregue pelos Fashion Awards, Helena é um dos nomes nacionais de maior sucesso, condensado numa carreira de 'felizes acasos', como lhe chama, quase como se dissesse que teve sorte - e tudo bem, porque já é certo e sabido, que a sorte se conquista.

Falámos com ela tu-cá-tu-lá sobre parte da sua história, sentadas entre pratas e secadores, sob um quadro que está pendurado num cantinho de Griffehairstyle e que serve de mantra e de spoiler. Diz: "Sê a melhor versão de ti mesma".

Como nasceu a vontade de te tornares cabeleireira?

Nunca tive aquele sonho de miúda de “ah, quero ser cabeleireira”. Foi muito natural. Nós somos cinco irmãos, sou a mais velha e sempre gostei de cabelos. A minha mãe sempre nos cortou o cabelo a todos, em casa, e eu comecei a cortar também aos meus irmãos. Coitadinhos [risos]. Daí desenvolvi o gosto, depois aos 16 anos aí sim, tinha uma prima que era cabeleireira e e comecei a pensar nisso. E foi um bocadinho por influência dela. E contra a vontade da minha mãe, que achava que eu tinha de começar a estudar. Comecei a trabalhar como aprendiz no cabeleireiro da minha prima e continuei a estudar à noite. Mas aí percebi que queria era acabar a escolaridade obrigatória e ser cabeleireira. Aí foi a minha mãe que me disse ‘então se queres tens de ir para a escola’ e fui para a escola de cabeleireiros. Tirei a carteira profissional aqui em Lisboa, na Rua de São Paulo, e depois foi acontecendo. Depois comecei a perceber que tinha de ter mais formação, porque em todas as profissões, e nesta especialmente, tens de estar sempre atualizada e ver coisas diferentes, e comecei a ir a workshops, formações la fora e cá, e sempre a trabalhar.

Suponho que o papel do cabeleireiro se tenha alterado completamente desde essa altura até agora.

Completamente, é outra coisa. É incrível. Eu sou do tempo que se fazia a laca no salão. Mas é engraçado que há determinadas situações em que em sinto que há uma regresso a essas coisas. Houve uma evolução gigante na forma de trabalhares, nas marcas e na cosmética mas há uma vontade de regressares a essas fórmulas quase ‘caseiras’.

Porque achas que isso está a acontecer?

Isso é um mundo. Mas eu acho que todos gostamos de dicas para respeitar o cabelo e de forma mais natural, sem químicos. Há muito essa vontade de não ser tudo tão cosmético, tão forte, e é um bocadinho por aí. Lembro-me perfeitamente na altura para secares o cabelo com rolos punhas cerveja preta, porque a cevada dava-te consistência. Usava-se ovo cru para dar brilho ao cabelo. Isso já não se usa, mas é sempre aí que vais buscar para a atualidade, à natureza e às fórmulas.

O que é que te fascinou logo quando começaste a trabalhar?

Sempre o pentear, cortar, a mudança, o sentir que estás... [pausa] Eu acho que no fundo não crias nada, esta tudo inventado. O que acho que é muito bonito e importante e a mim me toca é que somos das poucas profissões que mexe com a auto-estima das pessoas e isso é muito gratificante para nós. São pessoas que não conheces, com quem estás pela primeira vez, mas que tu percebes o porquê, há uma partilha muito grande. O cabelo diz muito de ti e do que queres transmitir aos outros. E tem muito a ver com a forma, tipo de cabelo, cada cabelo é um cabelo, cada rosto é um rosto. Há muito coisa – e isso ganha-se com os anos e a experiência e dedicação - que tens de prestar atenção para perceberes a cliente que tens à tua frente e que torna essa partilha especial. É muito bom quando percebes que de alguma forma tocaste nesse pessoa, ajudaste, que a elevaste.

O que acho que é muito bonito e importante e a mim me toca é que somos das poucas profissões que mexe com a auto-estima das pessoas e isso é muito gratificante para nós.

Já tiveste com certeza situações de pessoas que entraram no salão com um estado de espírito e saíram com outro completamente diferente.

Claro que sim, é muito bom quando vês que os clientes estão felizes. Porque vêm sempre procurar-te com uma necessidade. Tu quando mudas a tua vida profissional ou emocional cortas o cabelo. O cabelo tem um papel muito importante.

É uma mudança interior que queres que se reflicta no exterior.

Exactamente. Essa continuidade. E  tu tens de ter a sensibilidade de  perceber onde se quer chegar. E depois há a vantagem que o cabelo cresce. [risos] Há mudanças que todas nós já fizemos e que naquela altura fez sentido mas não correu bem.

É como o eterno dilema da franja. Fazes e arrependeste em 99% dos casos.

Mas pensas ‘pronto, isto vai passar’. Mas é bom o mudar, o arriscar. Há quem adore mudar e quem esteja a vida toda confortável com o seu cabelo como está. O cabelo é muito emocional, ou nos dá segurança ou não e isso é muito interessante.

O cabelo é muito emocional, ou nos dá segurança ou não e isso é muito interessante.

Ainda achas que  faz sentido falar-se em tendências ou seguir-se tendências ou estamos cada vez mais a respeitar a nossa própria individualidade?

Hoje em dia as pessoas têm a informação sempre disponível e mudou o paradigma. O que sinto no salão e nos trabalhos que faço é que a tendência é tu seres feliz, aquilo que te fica bem, o que queres demonstrar aos outros. A individualidade e quem tu queres ser e mostrar aos outros e isso acaba por deixar cair por terra a historia das tendências. Há sempre uma corrente mas tens é de te sentir bem. Cada vez se fala mais do corpo, aceitar as tuas características que te tornam especial, porque senão somos todos iguais.

Quem admiras neste meio?

Tantos. Internacional, o Guido Palau, Sam McKnight, Eugène Schueller... Vidal Sassoon foi a minha referência a nível de corte. Cá em Portugal tens o Miguel Viana, que me inspira, e o Paulo Vieira. E há novos miúdos que têm imenso talento e também sigo o trabalho deles.

Tu abranges várias vertentes de trabalho, lidar com o cliente, comercial, editorial. O que levas de ti para essa área da Moda?

Na parte editorial é sempre um trabalho de equipa, entre cabelos, makeupstyling... E há sempre uma história que tens de contar. Gosto imenso porque é um desafio, porque estamos a fazer no momento e a historia que o stylist quer interpretar. Muda muito conforme a revista que estás a trabalhar, ou cliente, se é comercial, e eu gosto dessa diversidade. Faz-te inovar. Ao fim de uns anos já fizeste muita coisa, mas aí é sempre tentares fazer melhor e diferente. No fundo, é trabalhares com pessoas, e costumo dizer muitas vezes, que quando acontece vermos um trabalho com o qual não nos identificamos tanto, não devemos ser tão críticos porque não sabemos em que condições foram feitos aqueles trabalhos e por vezes há situações muito difíceis, fazer cabelos na praia, não ter electricidade, e são essas condições que podem definir um trabalho correr melhor ou pior. É duro mas eu gosto.

A tendência é tu seres feliz, aquilo que te fica bem, o que queres demonstrar aos outros.

E aqui em relação ao salão, à Griffehairstyle, como surgiu?

Surgiu tinha eu 22 anos. Aconteceu naturalmente. Não estava muito feliz no sítio onde estava a trabalhar. Não sou muito boa empresária, eu esforço-me mas pronto [risos] Sempre foi tudo muito natural. E eu achei que era interessante na altura e tive o apoio de uma colega que me disse ‘tu consegues’. Queria criar um projecto onde eu me sentisse feliz e com o qual me identificasse. Tenho uma equipa incrível, alguns que estão comigo desde o início, como a Sónia, os que vão ficando, os que saem e voltam. Quando tens um salão tens de encontrar formas de estares na linha da frente, a pressão é muito grande, a tal evolução que falávamos é muito rápida. Se não crias em ti essa necessidade quando tens um salão, ou achas que já sabes tudo, não vai correr bem. Essa parte é um exercício que se tem de fazer e também fazer crescer as pessoas que estão contigo. É importante motivares quem está à tua volta, porque eu sem eles não consigo crescer. Eu acho que se estiveres feliz e estiveres num bom ambiente, tem de haver regras mas abertura para criares.

Como descreverias a Griffehairstyle?

A nossa identidade é, no fundo, como se fosse a nossa casa. Não somos pretensiosos, e essa é a forma como gosto de receber as clientes. E depois gosto de respeitar a identidade de cada um dos elementos que trabalha comigo.

Olhando para trás, consegues destacar um momento importante?

Um foi a primeira vez que fiz a ModaLisboa, na terceira edição, já há mais de 20 anos. Porque era algo que adorava, fazer desfiles, e quando fiz com o [José António] Tenente marcou-me. Aquela azáfama dos desfiles, do criares, é completamente diferente de um editorial de Moda. É muito trabalho, são muitas modelos, mas quando as vês todas prontas e a entrar no desfile, todos à boca de cena, é maravilhoso.

Continuas a sentir o mesmo sentimento?

Sim, sim, continuo.

Isso é incrível. E mais boas memórias?

Quando mudei o salão das Avenidas, na João Crisóstomo, para o Chiado. Sentia que o Chiado era a nossa zona mais cosmopolita, ali tinha um determinado tipo de clientes muito clássico e querida mudar. Eu tenho sempre esta inquietude. Sempre achei que passava com a idade, mas não acontece [risos]. Outro momento importante: quando a L’Oréal Professionnel me convidou para ser embaixadora da marca. Foi um orgulho muito grande. Trouxe-me um nível de apoio e de notoriedade dentro do meio profissional que é muito gratificante porque é um reconhecimento. Quando estás sempre a trabalhar às vezes não olhas para trás e para o que já construíste e não te apercebes que os outros estão atentos ao teu trabalho. Nunca quis muito saber também. [risos] Quando surgiu esse convite senti mesmo um reconhecimento, como um fruto do que tenho feito há tantos anos. Com tantos salões e cabeleireiros fantásticos sempre vi esta nomeação como um destaque. É uma marca que adoro e com quem sempre trabalhei e foi muito bom. Tens acesso a toda a informação e há uma partilha maior com os outros cabeleireiros, que era algo que não tinha.

Quando estás sempre a trabalhar às vezes não olhas para trás e para o que já construíste e não te apercebes que os outros estão atentos ao teu trabalho. Nunca quis muito saber também.

Estás sempre a magicar novas ideias. Qual é o próximo passo?

Eu já há algum tempo que me apetecia começar a dar formação e cursos. E esse é o meu próximo desafio. Só tenho de arranjar tempo e organizar-me. Eu sou um bocado intuitiva, tenho de sentir que é agora e depois aí sim, já não à volta a dar. É sempre em frente.

Os looks criados por Helena Vaz Pereira durante a edição da ModaLisboa Collective para a Primavera/Verão 2020 estão disponíveis na nossa página de Instagram.  Assista na nossa Highlight dedicada a esta edição o passo-a-passo dos visuais criados pela hairstylist. 

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