Eu sinto que a Lush trabalha muito bem com os nossos sentidos. Primeiro e indiscutível é o olfato. Eu acho impossível passar perto de uma loja e não querer entrar... Sinto-me naquelas bandas desenhadas em que as personagens flutuam atrás do aroma. E não é só em locais fechados, como centros comerciais. Lembro-me perfeitamente de uma viagem a Roma, onde fiquei hospedada na Via del Corso e, mesmo do outro lado da rua, era embriagada pelo perfume da loja. Tornou-se mais uma das boas lembranças dos dias em Itália.

Depois tem a explosão visual, com muitas cores e designs apelativos que fazem os meus olhos brilharem de alegria.

Por fim há o tato, com as icónicas bombas de banho e muitos dos seus produtos sólidos que ganham texturas no contacto com a água ou com o corpo.

Se é curiosa como eu, já deve ter percebido que a gigante britânica da cosmética natural inclui alguns ingredientes produzidos no Brasil nas suas fórmulas. Mas como a empresa é reconhecida pela sua ética, queria descobrir como o seu trabalho tem impacto do outro lado do oceano. Afinal, são esses ingredientes que sustentam pequenos produtores e produtores familiares de Norte a Sul.

Provavelmente, apoiar o comércio justo não deve ser a via mais fácil para uma empresa, mas no caso da Lush, é o que ela de facto busca, por isso tem uma história muito bonita em relação a esse apoio económico e social.

Então, sentei-me para conversar virtualmente com a Lívia Fróes, a responsável Lush pelos projetos de Buying na América Latina, que está em São Paulo, no Brasil. A empresa compra ingredientes de diferentes partes do mundo, pois segundo explicou Lívia, dessa maneira eles conseguem distribuir as compras pelo globo e acabam "ajudando todas as regiões”.

O diferencial do Brasil é ser um país enorme. “A gente tem seis biomas diferentes, então nós temos uma vantagem de conseguir oferecer uma variedade muito grande de ingredientes”, afirma.

“Quando as pessoas pensam no Brasil, elas acham que os ingredientes estão vindo só da Amazónia. Não, eu tenho ingrediente vindo do Cerrado [a savana brasileira], da Caatinga [de clima semiárido, é o único bioma exclusivamente brasileiro, o que significa que grande parte do seu património biológico não pode ser encontrado em nenhum outro lugar do planeta], tem ingrediente vindo da Mata Atlântica”, nomeia Lívia. “E às vezes falam: ‘Mas esse ingrediente não tem no Brasil’. Tem. Tem lá no Sul. É frio”, recorda, ao reforçar que esta é a característica que ela acredita ser o grande privilégio do país sul-americano.

Um país continental, com tantos tipos climáticos diferentes, contribui para a oferta de matéria-prima que pode ser produzida para uma infinidade de produtos da indústria cosmética.

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Por exemplo, a argila branca é coletada na Ilha do Marajó, nas proximidades do rio Amazonas. “O fornecedor utiliza um método de extração desenvolvido especialmente para essa região, garantindo que o meio ambiente não sofra impactos, pois todo o solo e entorno é recuperado após a extração”, comenta Lívia.

E para o óleo de pau-rosa, o fornecedor brasileiro da Lush fica na cidade de Maués, no estado do Amazonas. Quando começou a plantação de pau-rosa, em 1989, foi um dos pioneiros no país. “Hoje já tem mais de 30 mil árvores dessa espécie plantadas, entre outras espécies, como guaraná, copaíba, mogno e castanha-do-Pará. Com isso, eles contribuíram para restaurar uma área de cerca de 76 hectares onde antes era pasto”, conta.

Para cada matéria-prima existe uma história fascinante. Em 2020, a empresa britânica recebeu mais de 125 toneladas de ingredientes oriundos do Brasil. Ao ouvir o número, por um instante, não me parece que passámos por uma pandemia.

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“Eu venho de outras empresas do ramo da cosmética também, mas a Lush pensa muito fora da caixa”, elogia com um exemplo: “Tem um ingrediente que é de plantio, mas não queremos fazer só a monocultura, vamos fazer uma agrofloresta, porque um sistema agroflorestal vai ter a matéria-prima que a gente precisa e outras tantas que vão ajudar a regenerar a terra e o meio ambiente.”

A Lush também oferece apoio — desde palestras que visam informar aos agricultores os melhores procedimentos de saúde e segurança no trabalho, gestão e agro-ecologia, até um suporte técnico que seja necessário, desde emissão de notas fiscais a cálculo de impostos locais.

E, claro, em se tratando de Lush, a marca que acredita num futuro nu e é forte militante dos cosméticos sem embalagem, há a preocupação e instrução para a equipa de logística e transporte. A empresa até criou um manual de boas práticas em português e se preocupou em traduzi-lo para algumas línguas indígenas locais, como o caiapó.

“A gente não está em contacto com eles só para comprar ingrediente, é um contacto quase que diário para acompanhar o bem-estar e para saber se eles estão precisando de alguma coisa além dessa parceria comercial. Então é comida, é apoio, é alguma carta para o governo… Como a gente pode ajudar? E varia muito de grupos para grupos.”

Um bom exemplo desses apoios foi realizado ano passado. A Lush contribuiu com fundos para acolher um encontro histórico com mais de 45 etnias indígenas do Brasil, organizado pelos fornecedores dos feijões de cumaru, o Instituto Raoni, em face aos incêndios florestais recorrentes. A ideia do encontro era coordenar ações para os grupos se posicionarem como uma frente única junto do governo federal e combater todas essas ameaças à vida indígena.

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O atual governo federal brasileiro tem ignorado apelos nacionais e internacionais e continua a avançar com o desmatamento, com a queima e a falta de preservação da floresta amazónica e, consequentemente, na falta de apoio aos povos indígenas. “Nesses momentos a gente se organiza muito mais e busca maneiras de tentar ajudar mais. E vou ser bem honesta: ao longo da minha carreira, eu nunca me senti remar contra a maré. Eu sempre trabalhei com ingredientes naturais, buscando preservação e, às vezes, parece que você está indo contra a maré, mas eu nunca me senti assim, porque o que eu tenho visto ao longo dos anos é que tanto as pessoas quanto as empresas estão tomando cada vez mais consciência da importância da preservação, da proteção dos povos locais e das florestas nativas. Então eu acho que quanto maior for a compreensão da sociedade sobre a importância dessa proteção, menos força qualquer representante vai ter para gerar um impacto negativo”, discursou Lívia.

Em resposta às atitudes irresponsáveis do governo brasileiro, chegou-se a ouvir um discurso de boicote a qualquer produto oriundo do país, para pressionar a gestão (ou, no caso, a falta dela). A responsável Lush pondera esse movimento.

"Eu me sinto na obrigação de falar que essa é a pior estratégia que a gente pode ter, porque eu, Lívia, acredito muito que promover e privilegiar a utilização de produtos que contêm ingredientes de origem naturais, provenientes de práticas e técnicas éticas e sustentáveis, é a melhor maneira que a sociedade tem para contribuir para manter a floresta em pé e para proteger as comunidades nativas, porque comprando esses produtos, a gente está dando para essas comunidades locais uma fonte de renda alternativa para aquilo que historicamente eles conhecem como fonte de renda. E historicamente eu não me refiro aos últimos cinco anos. Desde que os portugueses chegaram aqui, as práticas para fonte de renda que eles conhecem são pecuária, agricultura, mineração ou extração de maneira — tanto legal quanto ilegal. Então se a gente tira essa opção de renda sustentável, eles vão acabar voltando para essas quatro práticas que são extremamente danosas para o meio ambiente."

Um exemplo de parceria frutífera é a da Lush com a Origens Brasil, que conecta empresas com cadeias de sociobiodiversidade na Amazónia, permitindo negócios que contribuem para a preservação da floresta. É através dela que a Lush compra os feijões de cumaru de grupos indígenas no Xingu e agricultores na Calha Norte. Essa relação comercial representa uma importante fonte de renda para 654 pessoas, com imenso impacto, principalmente nos meses de seca, além de ajudar a manter 11 milhões de hectares de floresta.

Essas parcerias acreditam na causa "produzir para conservar", pois ao gerar valor para a floresta gerarão valor para as pessoas que dependem dela. E, no fundo, todos precisamos da Natureza e dos seus biomas conservados.

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Trocou o Rio de Janeiro por Lisboa, e de lá trouxe o jeito curioso e a paixão por jornalismo. Por cá, Aline Fernandez aprendeu a amar os desdobramentos da língua portuguesa, e aqui na Miranda vai aplicá-los, e à sua obsessão pela Beleza, explorando a sua relação intrínseca com o Brasil. "Bora?"

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