Embora não me identifique com o acto de maquilhar, identifico-me com o comportamento de corrigir imperfeições da pele e ter uma aparência saudável, de tez uniforme. No entanto, ainda sinto algum desconforto quando pretendo falar do tema.
É como se o facto de ponderar/assumir o uso de ferramentas que geralmente fazem parte do universo feminino me diminuísse, de alguma maneira. Mas basta olhar para a História e verificar que foi comum, em algumas épocas e culturas, os homens maquilharem-se.
É exemplo disso a burguesia do século XVIII, incluindo os homens, em que se usava pó branco para aclarar a pele. Ou então no Antigo Egipto, em que se destacavam os olhos a negro, com Khol, que além da componente estética também cumpria a função medicinal como forma de protecção contra doenças oftalmológicas, ocorridas por causa dos ventos de areia.

Ser homem e usar maquilhagem não tem de ser igual a um drag-queen. A não ser que assim se queira. No meio artístico, onde trabalhei durante algum tempo, é prática comum os homens também serem maquilhados e todos aceitam e cumprem-no com naturalidade. É uma questão de trabalho.
Ainda há uns resistentes, geralmente os músicos. Esses, quando a produção lhes pede que passem à sala de maquilhagem, costumam responder que não precisam, pensando eles que é por uma questão de embelezamento. Ficam visivelmente incomodados, envergonhados ou ofendidos, como se a sua virilidade estivesse a ser posta em causa e lá têm de se submeter à intervenção delicada, esclarecidos de que é apenas pela questão do brilho que salta à vista. Caso contrário, iriam parecer ter uma bola de espelhos reflectora no lugar da cabeça.

Não apaguei da memória os tempos malucos, no final da adolescência, em que me maquilhava para ir sair à noite. Sobretudo para disfarçar as borbulhas.

Era como um milagre ver aqueles pontos vermelhos todos desaparecerem. Eu e os meus amigos das noitadas, com as bases das mães ou das namoradas nas mãos, a olhar-nos ao espelho da casa-de-banho e a “fazer Photoshop” à cara.

#ÁguaPelaBarba: lumbersexual, sim sou, com muito gosto
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E já que estávamos com o estojo aberto, por que não explorar mais?
As minhas referências do glam rock, o filme Velvet Underground, o vocalista dos HIM e os vampiros da Anne Rice podiam ter-me levado mais longe, mas fiquei-me só pelo risco no olho. Fazia-o para intensificar o olhar, já que a vaidade me tornou cuidador destes olhos-d’água e um olhar intenso podia fazer-me ter a noite ganha.
É curioso, fazendo a maquilhagem parte do universo feminino, que ainda existam empresas onde a mulher que se cuida e maquilha é discriminada entre as outras mulheres. Como se maquilhar-se fosse um comportamento vulgar e indigno, de alguém que pretende destacar-se das outras.
Mulheres, ponham a vossa vista nos homens e aprendam que esta técnica é mais um meio de conhecimento e inteligência de quem quer estar bem consigo mesmo, contribuindo para a sua auto-estima e confiança.
É por isso que acredito na Maquilhagem, embora de crente a praticante ainda me faltem uns bons degraus. Todas as minhas experiências me têm feito sentir que vou ter toda a gente a olhar para mim, porque nitidamente se vê uma camada de base densa e mal espalhada.

Bruno Reis, colaborador da Miranda, é o fundador e director criativo da Teeorema, marca de luxo de t-shirts.

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