O assédio está muitas vezes a par e passo com o poder. A sensação de impunidade que se crê adquirida ao atingir-se determinado cargo ou posição. Mas, na verdade, digam-me uma mulher que nunca se tenha sentido assediada. Acontece a todas, sentimos vergonha, banalizamos o acontecimento, muitas vezes até nos culpabilizamos e questionamos: aconteceu porque estávamos a pedi-las?

Tive duas situações de puro assédio na minha vida. Nos dois, fui apanhada completamente desprevenida, na rua. Em ambos, um homem aproximou-se pela minha retaguarda e sentiu-se no direito de me tocar entre as pernas. De me apalpar de mão cheia. Em ambos era muito novinha. Nem 20 anos tinha.

É muito difícil explicar o que se sente perante uma situação destas, em que somos invadidas na nossa integridade física por um estranho. Em ambos os casos, eu ia sozinha: um aconteceu em plena luz do dia, o outro de noite, ao regressar sozinha após uma saída com amigas. No primeiro, ainda consegui reagir e defender-me; no segundo, senti um medo profundo de que algo de pior me acontecesse — estava a chegar a casa, mas estava sozinha, era de noite e senti-me profundamente vulnerável. Felizmente comecei a gritar e a pessoa em questão decidiu afastar-se. Mas, se calhar, pus-me a jeito. Será?

#ÀFlorDaPele: eu já fui assediada — e tu, estavas a pedi-las ou puseste-te a jeito?
créditos: Mihai Surdu / Unsplash

Foram poucas as pessoas que souberam destas situações. Nem os meus pais, até hoje, sabem destas histórias. Nunca falei delas a praticamente ninguém, mas recordo-me como se fosse hoje. “Porquê o silêncio durante tantos anos e só agora falas nisso?”, é a questão que mais leio nos comentários de quem, agora – na sua maioria homens – se sente no direito de questionar as denúncias de assédio sexual feitas por várias mulheres portuguesas, na sua maioria atrizes, cantoras e apresentadoras de televisão, conhecidas do grande público. E penso porque é que também eu não falei nestes episódios durante tanto tempo a ninguém.

A resposta que mais me salta à mente é: porque os banalizei. Porque acreditei que, apesar de não serem normais, eram algo que “acontecia a todas” de uma forma ou de outra e, como tal, não lhes dei a importância necessária para os denunciar ou para expor a situação. Na minha cabeça não tinha como provar nada, já que não conhecia as pessoas que me assediaram. Porque fiquei envergonhada e me calei, porque os refundi na memória durante anos e só agora voltaram a dar sinal.

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Seja em situações de trabalho ou na rotina do dia-a-dia, na vivência comum, todas as mulheres já foram assediadas. E começam cedo a senti-lo na pele, mal as formas do corpo feminino se começam a manifestar. E um dia, sem esperarmos, sentimos na pele o que é isso de ser "assediada”, seja porque decidimos vestir uma saia mais curta ou usar um decote, seja simplesmente porque estamos na flor da idade e despertamos a atenção do sexo oposto. Ninguém nos prepara para lidar com o assédio. Não temos formação para lidar com abusos de integridade, com abusos de confiança e com abusos de poder – e devíamos.

Damos por nós muitas vezes a pensar: “Será que me pus a jeito?”; “Será que estava a pedi-las?”; distorcendo assim todo o acontecimento, como se tivéssemos sido as causadoras da situação, como se tivéssemos culpa do ocorrido. Como se tivéssemos de ser contidas e recatadas na forma como gostamos de nos vestir, de nos expressar e, até, de mostrar o nosso corpo.

Uma jovem rapariga pode gostar de atrair a atenção do sexo oposto, pelas formas do seu corpo, e de se sentir vista, notada e desejada, mas isso não significa que ao ser assediada por alguém, que não seja do seu desejo e vontade, seja merecedora de tal ato. Isso não é, nem nunca deverá ser, motivo de culpabilização da sua postura e comportamento para justificar o facto de ter sido invadida na sua integridade física. E sim, vamos sempre a tempo de falar sobre o acontecimento. Mais vale tarde do que nunca, lá diz o ditado – e mais não seja, porque estamos a ensinar às gerações futuras, e aos nossos filhos e filhas, o que é correto.

E não, não estávamos a pedi-las nem nos pusemos a jeito.

Mafalda Santos  fez das palavras profissão, tendo passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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