No dia em que entrei naquele elevador e vi no espelho o estado dos meus olhos, tive a certeza de ter entrado numa espiral sem retorno, onde nunca mais seria agraciado com cálices de colagénio a cada nível deste jogo. Houve algum erro na programação certamente e esquecendo-se que colagénio é essencial à vida, já só se ganham cálices de Conhecimento e de Água das Pedras.

Dêem-me outro jogo porque este está viciado e eu estou aqui preso! Como é que se repõe o colagénio que se esgota a uma velocidade galopante? 35 anos sem fumar, 35 anos sem beber, 18 anos vegetariano, 18 anos a praticar Yôga para conseguir os níveis de jovialidade no seu melhor e agora só me restam os cremes e os procedimentos estéticos, que já deveria ter começado há pelo menos 10 anos. Fiquei mal habituado pelo sentimento de validação que tive quando fiquei agenciado como modelo. Chegando a este patamar, o que é que há mais a fazer pela Beleza? Esqueci-me que o ser bonito também era fruto da minha juventude e que esta pedia investimento a longo prazo. É claro que me posso refugiar na desculpa de que a cosmética é cara, mas sem duvida que abusei da sorte quando há cremes no mercado que não custam mais que 5€ para uma boa manutenção.

Saí daquele elevador com uma certa urgência em fazer o tempo andar para trás e desde então que esse sentimento não me larga. Nasceu em mim uma nova causa, que não é bem como a outra que me veio agora da consciência do plástico e e da preservação do planeta. Esta custa mais dinheiro (não vou falar do plástico que uso!) e neste nível do jogo os melhores resultados só vêm com grandes investimentos! Um sufoco, é verdade.

Tenho para mim que esta ansiedade maluca só irá passar quando reconquistar a pele que tinha há 5 anos, sem uma mácula, sem uma irregularidade, firme como uma barra de ferro não digo, mas no nível de uma vela de cera seria óptimo! Tenho noção que esta lógica de raciocínio é a mesma que têm os que no fim do ano “decidem” que o ano seguinte é que vai ser, que que todos os problemas se vão resolver e a sorte vai chegar. Não porque não faça nada por isso (porque faço, oh se faço!), mas porque o Tempo, esse não tenho mão nele, e por mais rápido que me mexa, Ele chega sempre mais rápido para me dizer na cara “És ridículo. Vais ter rugas, pele flácida e muitos pêlos te vão nascer nos ouvidos. Happy new year!” E cospe-me um Game Over na cara.

#ÁguaPelaBarba: quem os viu e quem os vê
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Deste jogo, jamais sairei vencedor, mas saio a ganhar quando os miúdos mais novos de vintes acham que tenho a idade deles. Não me darem a idade que tenho já é uma conquista, mas aquilo que eu quero desta luta pela aparência jovem não se consegue só com um “espírito jovem”. Ver-me jovem ao espelho é crucial para sair da porta fora e passar a noite toda a dançar ao lado dos putos de vintes, é crucial para me levantar de manhã e realizar todos os meus projectos, é essencial para me sentir atraente e querer ser todos os dias a melhor versão de mim mesmo, até espiritualmente. É como eu informo o mundo e a Natureza que sou válido e que tenho espaço para existir!

Por isso, terei de fazer desta causa um lifestyle e nunca serão demais os dermarollers, os PRPs, os cremes anti-rugas, os lasers e as radiofrequências tal como nunca foram os yogas; os crossfits e os vegetarianismos. Alguma vez jogaram Grand Theft Auto? Adoro roubar carros, assaltar bancos e matar pessoas para passar de nível, mas o que me dá mais gosto são todas as outras possibilidades: escolher o personagem, escolher a cidade, ir a uma loja e escolher roupa, sair, passear e observar aa ruas, conduzir todos os carros que puder, ir jogar no casino, entrar num clube de striptease e ver o que acontece... E estarei nos jogos como na vida: Entro no nível seguinte quanto ele bater, ok?

Bruno Reis, colaborador da Miranda, é o fundador e diretorcriativo da Teeorema, marca de luxo de T-shirts.

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