Quem me vir sem roupa vai reparar na desproporção pilosa do meu corpo. As minhas pernas são monstruosamente peludas em comparação com o tronco, onde se contam alguns pêlos mal semeados e que sempre me fizeram sentir 'masculinamente' inferior. No entanto, durante a adolescência, o meu tormento era assistir ao crescimento desmesurado desta praga que me cercou todo o corpo da cintura para baixo.

O rabo está incluído neste território e não escapou ao cerco. Rapidamente tive de reformular o meu conceito de rabo bonito e acrescentei rabos peludos a essa concepção. Foi a solução mais rápida que esbocei para viver bem comigo mesmo.

Se no princípio da praga, lá pela adolescência, o meu desejo era ver-me livre de toda essa flora indesejável, mais tarde, no princípio da idade adulta, o que eu desejava era ver essa flora alastrar para o terreno acima da cintura e fazer-me sentir um homem a valer, de pêlo no peito. A barba veio compensar esse handicap.

Quando experimentei deixá-la crescer já era professor de yoga há 2 anos e senti-me uma autoridade da noite para o dia. É que antes da barba, com 25 anos, parecia ter 18 e com a barba passei a ter 30. Perdi muitas das minhas inseguranças pela maneira como passei a ser tratado profissionalmente.

A Raquel, uma aluna, no final de uma aula, disse-me que eu estava mais comestível. Não era uma coisa que um professor de yoga esteja habituado a ouvir, mas tal comentário só revelou que havia ganho uma nova aptidão, que era a capacidade de ser apreciado. Dali para a frente uma aula minha nunca mais foi a mesma coisa: fazia-me ouvir, as turmas eram receptivas, a indução dos exercícios tinha mais força e, quanto aos homens, também senti que passaram a gostar mais de mim, talvez porque passaram a ver-me como um reflexo deles mesmos. A barba fez-me ganhar uma injecção de confiança e passei a sentir-me admirado.

Havia conquistado o pleno da minha masculinidade, graças a uma simples manobra plástica. Apesar de ter crescido a querer aparentar ser mais novo do que sou (não se pense que a minha obsessão com a juventude eterna vem de há pouco), a barba tornou-se uma ferramenta essencial e imprescindível na minha relação com o mundo. Os meus cobiçados olhos azuis ganharam a moldura perfeita e andar na rua tornou-se uma experiência de vaidade ainda mais gloriosa.

Com a nova aparência vieram também novas rotinas matinais.

#ÁguaPelaBarba: as minhas resoluções de Beleza depois dos 36
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A barba que me cresce no pescoço, essa corto-a com a gilette todos os dias, no banho e, com menor frequência, aparo o resto com a máquina que comprei na altura, que serve para todo o corpo e que também posso usar no banho. Na verdade, não gosto de cuidar demasiado da barba. Esta moda recente das barbearias, dos dandies e dos gentlemen tornou-se tão popular que me saturou e provocou algum distanciamento, como com tudo o que vira moda de uma maneira contagiosa. Barbas demasiado desenhadas quero-as longe. Cuidar das mesmas e tratar delas é outra coisa e confesso que ainda me falta acrescentar à rotina matinal um óleo e uma cera.

Pareceram-me produtos para necessidades reais visto muitas vezes sentir a barba crespa e a partir de um determinado tamanho torna-se quase indomável. Mas ainda não adquiri estes hábitos, talvez por preguiça, talvez pelo estigma do passado em que me sentia pobre em masculinidade e que agora compenso com esta rebeldia.

A rebeldia, actualmente, trouxe-me a outro estágio e depois de 10 anos barbudo em que só cortei a barba umas 3 vezes, decidi rejuvenescer o semblante e regressar à carinha de bebé.
Recuperei 5 a 8 anos e embora os elogios venham de vários lados, ainda me sinto com a fragilidade de um cão acabado de tosquiar.

É que a experiência que o meu inconsciente guarda da barba é de pujança e sex appeal. Ainda não registou suficientes reacções de aprovação à ausência de barba. Por isso, a estratégia que tenho adoptado é ir aparando com o pente, mais ou menos semanalmente.
Assim, ao menos, em sete dias ainda consigo o melhor de dois mundos: ora barba ora baby face; ora 'tesudo', ora naif.

Bruno Reis, colaborador da Miranda, é o fundador e director criativo da Teeorema, marca de luxo de t-shirts.

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