Acho que nunca tive umas férias em que abusasse tanto do sol. Foram dias seguidos exposta nas horas de maior calor – algo que para a maioria do comum dos mortais já é um comportamento de risco, comigo é ainda pior – mas a verdade é que sempre adorei o tom bronzeado que a minha pele ganha antes de começar a escamar e me deixar numa alternância de branco e negro, qual tabuleiro de xadrez.

Este ano bronzeei-me como há anos não acontecia, mas a minha pele aguentou-se estoicamente e permitiu-me chegar a Lisboa ainda com um bronze decente para exibir. Aquela tonalidade caramelo que dispensa bases ou qualquer tipo de maquilhagem, porque a pele está tão luminosa e naturalmente bonita que não necessita de qualquer embelezamento extra.

#ÀFlorDaPele: ir a Espanha comprar cremes? Sim, as férias servem para tudo!

Mas não pensem que o fiz de forma inconsciente, antes pelo contrário: não descurei nem um bocadinho os meus cuidados pessoais na hora de andar a dar mergulhos na piscina e no mar, ou enquanto me deitava ao sol. Só em protetores solares despachei duas embalagens SPF 50, que colocava religiosamente no corpo e na cara. Sempre que saía da água, repetia, terminando toda a operação com creme gordo, porque só assim a pele fica devidamente hidratada e aguenta tanto tempo ao sol.

E como já vem sendo tradição, já que estava pelos Algarves e perto da fronteira com Espanha, eis que fomos até Ayamonte, não para comprar caramelos, mas para fazer uma visitinha ao Mercadona e comprar cremes de rosto e de corpo que me permitam ter stock durante largos meses – acho que até ao final do ano, pelo menos, estou safa.

Pode parecer uma superficialidade, mas esta ida ao Mercadona de Espanha para comprar cremes hidratantes, específicos para peles atópicas, com eczemas, desidratadas e/ou ressequidas, é um dos pontos altos do ano. Em junho, quando desconfinei das primeiras vezes e fomos visitar a família a sul, as fronteiras ainda se encontravam fechadas e não o pude fazer, por isso, agora, a vontade era mesmo muita.

#ÀFlorDaPele: não é a pele que nos define
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É que não só encontramos uma variedade de gamas e produtos como não existe nos supermercados nacionais, como ainda temos preços tão acessíveis que, pelo preço de um creme de supermercado em Portugal, em Espanha trago três – com a vantagem de ser específico para peles com problemas! Ou seja, qualidade superior a preços de saldo. O maior desejo para quem necessita de cremes como de água para sobreviver, sem ter de vender um rim para o conseguir.

Em Espanha consigo comprar cremes em embalagens de 500 ml, ou de 1 litro, a menos de 5 euros, com o selo do Instituto Espanhol. São cremes ricos em hidratação, à base de ureia ou de emolientes, específicos para peles com problemas, como a minha, que as deixam suaves e hidratadas.

Esta qualidade e conforto na vida de um doente com uma doença de pele específica só é conseguida no nosso país à custa de vários e elevados euros, com cremes quase todos de compra farmacêutica, em embalagens reduzidas na quantidade que proporcionam, o que faz com que quem sofra de alguma patologia cutânea tenha de despender uma “renda” mensal, sendo considerado quase um luxo, pela indústria farmacêutica e de cosmética, tratar devidamente algo que devia ser acessível e, acima de tudo, natural.

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E não chega ter havido um despacho emitido em 2018, onde ficou determinado que os doentes com ictiose beneficiam de um regime excecional de comparticipação nas medidas de tratamento, o que por si só já é ótimo e um grande passo, e ajuda na compra de óleos e cremes emolientes, or parte de doentes que necessitam dos mesmos de forma diária e contínua. Mas é necessário normalizar a acessibilidade e o custo a famílias inteiras e ao maior número possível de pessoas.

Não disponho de dados atualizados mas, numa breve pesquisa, descubro que a dermatite atópica é, por exemplo, a doença inflamatória da pele mais frequente em todo o mundo, apesar de estar, em muitos casos, sub-diagnosticada e sub-tratada. Um estudo nacional, de seu nome 'Nostradamus', datado de junho de 2019  e conduzido pela IQVIA com o apoio da Sanofi – uma companhia farmacêutica – estima existirem cerca de 34 mil portugueses com DA moderada a grave, representando 40 a 45% dos adultos em território nacional, e que “as pessoas com dermatite atópica vêem a sua qualidade de vida diminuída, devido a lesões cutâneas, prurido intenso, perturbações do sono e sintomas exacerbados de ansiedade e depressão. A patologia apresenta um encargo socioeconómico importante.” Leiam bem esta última frase: A patologia apresenta um encargo socioeconómico importante.

Quem diz dermatite atópica, diz eczemas, diz psoríase, diz ictiose, diz todas as patologias cutâneas que necessitam de cuidados diários e contínuos.

#ÀFlorDaPele: corpo de verão em 2020
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E se assim é, porque é que os cremes em Portugal são tão caros? Porque é que temos de ir a Espanha, viajar até outro país, para ter acesso a cremes específicos para estas patologias a pouco mais de € 2? Porque é que em Portugal só conseguimos ter essa qualidade e conforto em compra de farmácia e com custos superiores – em média – a 20 euros a embalagem? Alguém me explica? É que eu, sinceramente, gostava de perceber e por isso lanço desde já o repto.

Já nem falo do IVA taxado a 23%, mas da acessibilidade de ter, em grandes superfícies comerciais, cremes destinados a uma necessidade e patologia que atinge um número cada vez mais crescente de pessoas.

Podemos ter estudos elaborados e suportados com a ajuda de empresas farmacêuticas sobre estas patologias cutâneas, mas enquanto essas mesmas empresas e laboratórios farmacêuticos não proporcionarem a acessibilidade dos seus produtos à maioria da população, num país onde o salário mínimo é de 635 euros, até para se ser doente, seja de que patologia for, é preciso ter sorte. Ou isso, ou mais vale ir comprar cremes a Espanha.

Mafalda Santos fez das palavras profissão, tendo já passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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