Naquele dia em que a professora da primária me chamou à carteira para um inquérito meramente estatístico, fui confrontado com uma singularidade que desconhecia até ali. Só me lembro de me ter perguntado com quantas pessoas eu vivia e quando respondi 10, a reacção foi de muito espanto.
Não percebi a estranheza a algo que para mim sempre fora tão natural como partilhar as minhas rotinas com mais 9 pessoas: um avô, uma avó, uma tia solteira, um tio, uma tia, um primo, o meu pai, a minha mãe, a minha irmã e eu.
Vivíamos num duplex amplo, com vista para a futura Olaias, cedido pela Câmara de Lisboa, num bairro projectado pelo arquitecto Tomás Taveira, para o realojamento das famílias que habitavam no antigo bairro do relógio. Uma dessas famílias era a minha e eu já só conheci esta casa, igual às outras da vizinhança, recheadas de gente.

Uma infância destas, que afinal destoava da realidade dos meus colegas de turma, foi bem provida de laços entre 10 pessoas diferentes entre si e tantos outros laços existiam entre as várias famílias vizinhas no prédio. Apesar de ocorridos ressentimentos e mágoas, as memórias que guardo são de muitas alegrias, muitas brincadeiras e muito amor partilhado de tantas maneiras.

Esse amor soube-me a filhoses de abóbora, a bolo rei torrado com manteiga, a rabanadas ainda quentes, a arroz doce com canela e a tarte de amêndoa crocante

Foi um suporte emocional que me tem poupado à ingestão promíscua de açúcares, não tendo aquelas necessidades irracionais de recorrer a doces por carências afectivas diversas. No entanto, há sempre aquela sobremesa suprema dominadora que faz a minha felicidade gustativa, em situações especiais, como um tiramisú ou um éclair ali da Éclair.

#ÁguaPelaBarba: ser belo hoje é aceitar e viver com as nossas imperfeições
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Sei que se comer uma sobremesa todos os dias, ela perde o estatuto divino, então como-a nos momentos em que reúno as condições ideais de degustação: um fim-de-semana ociosamente retemperador e um bom café ou cappuccino a acompanhar.
No Natal, o espírito de dieta é o mesmo. Sendo a altura do ano em que estou imbuído daquele sentimento de paz e de serenidade, a predisposição para comer as iguarias festivas também é pomposamente selectiva. Há especialidades que não se comem durante o resto do ano e, só por isso, quero viver a experiência de comer em modo de atenção plena. E se o fizer em família, o sabor ganha outra expressão! Como sem qualquer culpa e até considero saudável a liberdade de comer o que quero.

Não me nego aos sonhos de cenoura acabados de fazer nem aos frutos secos, mas toda esta libertinagem não significa que não tenha um método: só como o que gosto e que vai valer a pena, faço actividade física todo o ano, como saudavelmente e raramente ingiro açúcares... E nesta altura do ano, ter esta família numerosa também ajuda, ou não fosse tudo a dividir por 10.

Bruno Reis, colaborador da Miranda, é o fundador e director criativo da Teeorema, marca de luxo de t-shirts.

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