A minha relação com a Beleza é um retrato fiel e documentado do meu crescimento e mudança. As camadas de base e corretor de olheiras da adolescência eram tantas quanto as minhas inseguranças e, à medida que fui entrando na idade adulta, também os meus hábitos e rituais de embelezamento ganharam novos contornos e significâncias. Não posso ser hipócrita – como a maioria, gosto de me sentir bonita. Mas foi esta visão do que é belo que se foi lentamente alterando num processo talvez inverso, primeiro diante dos meus olhos, apreciando aquilo que torna alguém único mesmo que não consensual, e só mais recentemente em mim mesma. Cresci rodeada e moldada pelos padrões que nos empalam os olhos numa só direção e feliz ou infelizmente nunca me senti enquadrada em nenhum. O meu corpo não correspondia às medidas das revistas, o meu nariz desenvolveu-se para uma forma mais pronunciada, a minha tez sempre se revoltou contra os meus estados de espírito instáveis e as minhas emoções sempre viveram à flor da pele, com eczemas nas alturas de maior ansiedade e crises de acne que, na altura, me pareciam comandar a minha vida inteira.

#Domingando: cuidados de Beleza para fazer como se tivéssemos todo o tempo do mundo
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Sempre me socorri na indústria da Beleza para aumentar a minha autoconfiança: pelas minhas prateleiras já passaram quase todos os cremes anticelulíticos do mercado, loções para melhorar a aparência dos poros e borbulhas, bases de alta cobertura. Já fiz todas as dietas, já experimentei procedimentos estéticos e alguns mais invasivos, já me inscrevi em mais ginásios do que lá fui, já preenchi com checked todos os clichés de alguém que começou a cuidar do exterior antes de olhar para dentro. Não o digo com algum tipo de constrangimento ou arrependimento: tudo isso me trouxe até todos os questionamentos e aquilo que considero uma relação amigável comigo mesma e com a minha imagem.

A dualidade da indústria da Beleza reveste-a até hoje. Tanto nos limita, padroniza e atormenta como pode significar sinónimo maior de liberdade. No epicentro da questão, encontramos a liberdade de escolha. Mesmo engolidos na centrifugadora social de costumes e padrões, é possível utilizar os instrumentos de embelezamento para passarmos mensagens, para nos impormos, para nos libertarmos. A discussão não é nova, nem tem uma resposta consensual à vista. Naomi Wolf descreveu a Beleza como a última crença de sistema que mantém a dominação masculina intacta e como ou quem decide o que é ou não bonito está na base do problema. A pressão para correspondermos a um ideal não é um mito e sentimo-la desde cedo – especialmente nós, raparigas - numa espécie de paradoxos de liberdade de escolha que são, na realidade, limitados. Um mundo em que os padrões de beleza não existem pode nunca ser possível, mesmo que os discursos cada vez se tenham tornado mais inclusivos, mais representativos, mais alargados. A nossa liberdade terá de ser encontrada algures no meio das restrições, começando talvez por cultivar mais o positivo do que o negativo, desmistificando ideais irrealistas, aceitando elogios, dando-os, também elevando características sem as qualificar, centrando-nos na única faceta que, aos olhos do mundo, não desvanece com a idade: a nossa personalidade.

Espero estar cá para viver numa era em que todas as mulheres vivam de forma tão livre para sentirem nada mais do que orgulho na sua fantasticamente imperfeita aparência. Até lá, quando fizermos o exercício de nos olharmos ao espelho, que tal por uma vez evidenciarmos os nossos pontos fortes ao invés de começarmos todas as frases com ‘detesto’? Nem sempre é fácil silenciar as vozes negativas, é um exercício diário e precisamos constantemente de nos lembrar que as nossas características físicas são veículos de experiências e que a nossa imagem não nos define. As minhas prateleiras continuam recheadas de produtos, porque adoro cuidar de mim, mimar-me, fazer-me sentir bem. A maquilhagem faz-me sair da minha zona de conforto ou às vezes acolhe-me. Os meus cuidados de skincare são, em muitas dias, o mais profundo momento de paz e contacto comigo mesma. O exercício físico tem vindo a tornar-se um aliado anti-ansiedade, uma fonte de energia e um ritual imprescindível de self-care. A alimentação, mais do que dividir-se em comidas boas ou más, é uma forma de nutrir corpo e mente, às vezes com um abacate outras com uma taça de Cerelac. E a atenção dada ao que se passa na minha cabeça é o derradeiro bálsamo que faz brilhar não só a minha pele como os meus olhos.

Do jornalismo à comunicação, é na escrita que Patrícia Domingues espelha a sua natureza curiosa e bem-humorada. Na Miranda, a libriana partiha instantes de um eterno namoro pela Beleza, bem-estar e cosmética.

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