Falemos de ansiedade

A perspetiva médica convencional sobre a ansiedade é realmente simplista: acredita-se que possa ser um desequilíbrio de neurotransmissores e precisa de um medicamento para restabelecer esse equilíbrio. Às vezes funciona. Às vezes não. Mas de qualquer forma, essa medicação não faz nada para restabelecer o equilíbrio, funcionando apenas como um “penso rápido”, que apenas suprime esses sintomas desconfortáveis ​​(e sim, eu sei que eles são desconfortáveis).

Este modelo de pensamento assume que há algo “avariado” e que a única solução é um produto farmacêutico... já a mensagem que trago hoje é: há soluções naturais para a ansiedade.

E se escolheu um medicamento para controlar os seus sintomas, não fez nada de errado.

Mas hoje quero partilhar consigo a abordagem da medicina funcional para a ansiedade e oferecer algumas ferramentas para ajudá-la a gerir esses sintomas... e talvez, até, acabar com a ansiedade para sempre.

Sei o quanto a ansiedade pode ser difícil.... quando eu estava na Faculdade de Medicina, fomos ensinados sobre a ansiedade como se fosse um sentimento desconfortável e passageiro, e acredito que a maioria das pessoas que nunca tenham realmente experimentado ansiedade dêem pouca atenção ao que uma pessoa pode realmente sentir no meio de um ataque de pânico. E muito menos na ansiedade diária.

Mas a ansiedade é algo mais complexo do que um simples sentimento.

Quais as causas subjacentes da ansiedade, do ponto de vista da medicina funcional?

Quando pensamos sobre a ansiedade através da perspetiva da medicina funcional, o primeiro passo é avaliarmos as possíveis causas subjacentes que levam à ansiedade. Por exemplo, mesmo que se estabeleça que o motivo da ansiedade de alguém é um desequilíbrio de neurotransmissores no cérebro, o que está a causar o desequilíbrio desses neurotransmissores em primeiro lugar?

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Para ajudar a responder a esta pergunta, vou explicar como abordaria um paciente com ansiedade, que venha ter comigo ao consultório. Numa primeira avaliação, teria de recolher um histórico completo do caso e considerar vários resultados de testes de laboratório, para então poder fazer recomendações específicas. No entanto, posso dizer o que eu faria, o que examinaria, e dar-lhe algumas ideias para a sua exploração e algumas coisas para tentar, enquanto analisa mais de perto alguns desses mecanismos que podem estar a contribuir para a ansiedade.

  1. A relação da saúde intestinal com a ansiedade

O primeiro lugar no corpo que eu iria procurar, o que pode surpreendê-lo, é o intestino.

Há numerosas e crescentes evidências que conectam a saúde do intestino à saúde do cérebro. Na verdade, há um ditado na medicina funcional: fogo no intestino, fogo no cérebro. Este ditado significa que a inflamação no intestino pode desencadear inflamação no cérebro. A inflamação no intestino pode estar na forma de sensibilidades alimentares, parasitas, supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO), supercrescimento de fungos ou disbiose.

A teoria de que a saúde intestinal afeta o cérebro não é nova. Na década de 1920, pesquisadores da Duke University estavam a fazer conexões entre o intestino e o cérebro. Hoje, o eixo intestino-cérebro é bem estabelecido na literatura científica. Infelizmente, poucos médicos, psicólogos ou psiquiatras convencionais, estão cientes dessa conexão.

Outro ponto importante em relação à conexão intestino-cérebro diz respeito à serotonina. A serotonina é um neurotransmissor que desempenha um papel no humor. Tendemos a pensar no cérebro quando pensamos na produção de neurotransmissores, mas o facto é que o intestino produz 400 vezes mais serotonina em comparação com o cérebro.

  1. A teoria das citocinas inflamatórias

Outra teoria mais atual sobre o que causa a ansiedade, e também depressão, é chamada de teoria das citocinas inflamatórias. Essa teoria acredita que a inflamação, seja no intestino ou noutro lugar do corpo, suprime a atividade do córtex frontal e causa alterações de humor. Há também pesquisas que ligam distúrbios intestinais com outras doenças, como Parkinson e Alzheimer, transtorno de défice de atenção e hiperactividade, transtorno obsessivo-compulsivo e até esquizofrenia e psicose. Assim, neste ponto, não há muitos transtornos cognitivos, comportamentais ou de humor que não possamos vincular a problemas intestinais.

  1. Doenças da Tiróide e Ansiedade

Se se sente completamente sobrecarregada e sempre ansiosa, é hora de verificar a sua tiróide. Como médica de medicina funcional, um dos primeiros testes que faço quando alguém me diz que sofre de ansiedade crónica é um painel completo da tiróide.

Ter excesso de hormonas da tiróide, como no caso da doença de Graves, também pode causar ansiedade. O que muitas pessoas não sabem é que isso também pode ocorrer nas tiroidites de Hashimoto.

Ao lidar com a tiroidite de Hashimoto, o seu sistema imunitário está a atacar a glândula tiroideia. Quando a sua glândula está sob ataque, as hormonas tiroideias podem espalhar-se para a corrente sanguínea, provocando ansiedade e até palpitações cardíacas.

Também é importante entender que cada célula do corpo tem recetores para as hormonas da tiróide e, sem a função adequada da tiróide, muitos sistemas do seu corpo sofrem. Para além disso, as hormonas da tiróide atuam diretamente no cérebro, entre muitos outros sistemas do corpo, o que faz sentido em como isso pode afetar os níveis de ansiedade.

A ansiedade é um sintoma – um sintoma que tem uma causa-raiz

Na medicina funcional, procuramos descobrir a causa-raiz e abordar o sistema nesse nível. É como ter uma farpa no pé – remove a farpa ou apenas toma os analgésicos para calar o corpo?

Mas tratar a causa-raiz não significa ignorar os sintomas ou deixá-lo apenas lidar com eles.

Curar a ansiedade com uma abordagem funcional significa, em primeiro lugar, descobrir por que tem os sintomas, além de oferecer algum alívio e ferramentas para gerenciar a ansiedade no dia a dia.

Suplementos úteis

Então, essas são provavelmente os três principais desequilíbrios nas quais eu focaria primeiro em termos de ansiedade, mas há algumas outras intervenções que gostaria de mencionar que lhe podem ser úteis:

  • Complexo B: as vitaminas B são necessárias para a produção e degradação de neurotransmissores envolvidos na modulação da ansiedade. Recomendo habitualmente aos meus pacientes que tomem complexo B com folato ativo e B-12 diariamente.
  • Taurina: é outro nutriente, um aminoácido, que é um precursor e um ativador do GABA, o principal neurotransmissor inibitório, e de que muitas pessoas com ansiedade demonstram ter baixos níveis. Portanto, tomar taurina pode ajudar a aumentar os níveis de GABA. A dose recomendada é de 500 mg até 3 gramas por dia e, normalmente, é recomendado começar com uma dose mais baixa e aumentar lentamente.
  • L-teanina: outro aminoácido, esta substância é encontrada no chá verde e aumenta as ondas cerebrais alfa e diminui as ondas cerebrais beta, podendo ter um efeito realmente calmante e relaxante, sem causar sonolência. A L-teanina pode fazê-la sentir-se simultaneamente mais alerta, mas mais calma. Recomendo doses de 200 a 400 mg por dia, sendo um bom ponto de partida talvez 200 de manhã e 200 à noite, ou 100 mg de manhã e 100 mg à noite, para começar com uma dose mais baixa.
  • Plantas Adaptogénicas: Os adaptogénios são uma classe de plantas que regulam com segurança, suavidade e eficácia, a resposta do corpo ao stress, por meio das suas ações fisiológicass nas glândulas supra-renais. Exemplos incluem Ashwagandha (Withania somnifera), Rhodiola (Rhodiola rosea), Eleutherococcus (Eleutherococcus senticosus), cogumelo Reishi, Ginseng (Panax ginseng) e Schisandra (Schisandra chinensis). Podem ser tomados diariamente, durante um período de três meses a um ano, para obter melhores resultados. São seguros para praticamente todos os adultos (não para mulheres grávidas, ou se estiver a tomar medicamentos para uma doença autoimune, pelo que converse primeiro com o seu médico) e alguns também podem ser usados em crianças (verifique com o médico do seu filho).
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Se estiver a tomar medicamentos para ansiedade

Na medicina convencional, a causa da ansiedade é entendida como um desequilíbrio de neurotransmissores no cérebro. O tratamento envolve frequentemente a prescrição de medicamentos que aumentam a disponibilidade desses neurotransmissores no cérebro. Sei, por experiência própria, que esses medicamentos podem ser úteis e salvar vidas. Portanto, não estou a argumentar que eles não devem desempenhar qualquer papel. No entanto, o objetivo dos medicamentos no tratamento da ansiedade deve ser de curto prazo, enquanto se procura identificar e tratar as causas subjacentes. Na medicina funcional, somos treinados a descobrir as causas subjacentes do problema e a abordá-lo a esse nível, em vez de apenas suprimirmos os sintomas.

Se estiver a tomar medicamentos para a ansiedade, trabalhe com um médico funcional, um naturopata licenciado ou fitoterapeuta, se desejar fazer a transição para o uso de suplementos como adjuvante ou substituto. Isso pode ser feito com sucesso, mas também deve ser feito com segurança, e algumas dessas ervas podem interagir com medicamentos comumente usados. Além disso, não tente parar de tomar benzodiazapinas sem ajuda médica, devendo ser feito o “desmame” gradual para evitar sintomas de abstinência graves e potencialmente perigosos.

Eu sei o quão difícil a ansiedade pode ser. Também sei que não precisa de ser um problema paralisante. Aprender a entender e a curar a sua ansiedade não é necessariamente um caminho rápido ou fácil. Mas é um caminho para a autodescoberta. Convido-a a abraçar este desafio – considere-o uma aventura e aproveite a jornada!

Dra Andreia de Almeida é médica certificada em Medicina Funcional e Medicina Anti-Aging, com treino especializado em Modulação Hormonal e suplementação avançada. Conhecida pela sua abordagem empoderadora e focada na pessoa, através da sua prática clínica procura inspirar as pessoas a encontrarem o equilíbrio, bem-estar e felicidade interior. É a autora de Saúde para ELAS: o kit de sobrevivência para mulheres dos 20 aos 60+”, um livro dedicado à saúde feminina.

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