Quando se tem ou nasce com um problema, seja ele de que natureza for, aprendemos a viver com o mesmo, arranjamos mil e um truques e artimanhas que nos permitam levar uma vida normal e seguimos em frente.

Eu, que nasci com ictiose, sempre tive no verão os meus meses de sacrifício. Não podia usar saias ou calções curtos para não mostrar as pernas, evitava andar com sandálias abertas de forma a não revelar demasiado os meus pés, nunca usava tops de alças ou sem ombros, e sempre que o tempo estava mais frio e encoberto eu agradecia, já que a ictiose faz-me aquecer a temperatura do corpo.

#ÀFlorDaPele: não é a pele que nos define
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Por tudo isso, para mim o verão era sinal de tormenta. Já para não falar das idas à praia, em que estar completamente exposta à beira-mar podia despertar os olhares mais inquisidores. Ao longo dos anos, aprendi uma série de truques que me davam algum conforto e me faziam sentir mais resguardada, como, por exemplo, um pareo ou saída de praia, que colocava à volta da cintura e me tapava a zona da barriga, ancas e pernas, e me fazia sentir mais ‘normal’.

Ainda hoje utilizo estes estratagemas e recursos para quando estou em piscinas ou à beira-mar. Gosto de ser notada, mas pelos bons motivos e não porque o meu corpo, neste caso a minha pele, é diferente da dos demais.

Também sempre tive tendência de escolher fatos de banho em detrimento de biquínis, porque – e mais uma vez – me permitiam estar mais ‘tapada’ e me deixavam mais confortável nesta coisa de esconder o próprio corpo, ou quase pedir licença por existir.

Com o passar dos anos, e mesmo ainda hoje, continuo a socorrer-me destes truques, mas estou cada vez mais arrojada no que a explicações aos outros ou à vida em geral diz respeito. Faço-o por mim e por aquilo que me faz sentir bem e é por esse princípio que me rejo. Não o faço para evitar que os outros me olhem como se eu fosse um ser estranho.

E quando apanho alguém a olhar-me descaradamente e a tentar perceber ‘o que é isto’, a minha atitude geralmente é adotar a mesma postura e olhar para a pessoa de forma igual, numa espécie de duelo silencioso, bem ao jeito de “I see you”. Quem desviar o olhar primeiro perde – e geralmente nunca somos nós. Experimentem, resulta.

#ÀFlorDaPele: corpo de verão em 2020
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Esta jornada e atitudes são um processo. Eu demorei o meu tempo e só agora, mais velha, é que cheguei a uma fase da vida em que acho que perdi demasiada energia com os outros, quando o foco devia ser eu. Não devia ser eu a quase pedir desculpa aos outros e a esconder-me por estar na praia e ser diferente dos demais. A não desfrutar tanto das coisas como devia por estar sempre preocupada com os ‘outros’, por ter medo do que os ‘outros’ fossem pensar, sempre a agir e a fazer tudo para que os ‘outros’ não reparassem na minha ‘diferença’, a condicionar-me a mim mesma. Para quê? Quem são os ‘outros’? Eles importam na minha vida? Preocupam-se comigo? As suas opiniões são importantes para mim? A resposta é não, não são.

Por tudo isso, aceitei que o importante sou eu. Fazer as coisas por mim mesma, permitir-me desfrutar, seja com um pareo à volta da cintura porque isso me dá conforto, ou com um fato de banho com um decote vertiginoso porque isso me faz sentir bonita. Porque autenticidade é poder e o amor próprio custa a conquistar, mas quando lá chegamos e o alcançamos, não há ‘outros’ que nos demovam.

Mafalda Santos fez das palavras profissão, tendo já passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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