A poderosa mensagem das pressões, comentários, regras ou comportamentos que são impostos às mulheres rapidamente encontrou no rosto da atriz Cynthia Nixon (da série O Sexo e a Cidade), e no texto relatado, aquilo que já todas sentiram na pele: a pressão de ser mulher. O vídeo “Be a Lady They Said” espalhou-se como um rastilho e foi partilhado de forma exponencial em toda a ciberesfera.

Todas crescemos com mensagens, recomendações, reprimendas, conselhos, boas intenções, pressões sobre como, enquanto mulheres, nos devemos comportar, ser, estar, falar, ou até comer. A verdade é que a tarefa é inglória e parece que nunca estamos à altura. Mas estas frases, mesmo quando ditas com as supostas melhores boas intenções – e partindo de outras mulheres que nos são próximas, como a nossa mãe/avó – trazem consigo uma pressão e uma carga emocional imposta sobre o que é correto e o que se espera que nós, enquanto mulheres, devemos ser. E isso passa por quase todos os parâmetros da nossa vida – desde a forma como nos vestimos, à cor do nosso cabelo, ao formato do nosso corpo, ao que comemos, se comemos muito ou pouco, se cruzamos as pernas quando nos sentamos, se nos maquilhamos em excesso ou se não nos maquilhamos de todo, se temos filhos, ou se nos dedicamos à carreira. Parecemos a velha metáfora do burro com uma cenoura em frente dos olhos: corremos, corremos, mas nunca a alcançamos.

O texto, intitulado “Writings of a Furious Woman” e originalmente publicado em 2017 no blogue de Camille Rainville, uma americana recém-licenciada de 22 anos, encontrou agora eco e expressão neste poderoso vídeo publicado no Instagram da revista Girls. Girls. Girls e que já conta com mais de 2 milhões de visualizações e 15 mil comentários.

#ÀFlorDaPele: a beleza tem prazo de validade? Não, não tem
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Seja uma senhora, dizem eles. A sua saia é muito curta. A sua camisa está muito alta. As suas calças estão muito apertadas. Não mostre tanta pele. Não mostre as suas coxas. Não mostre os seus seios. Não mostre a sua barriga. Não mostre o seu decote. Não mostre a sua roupa interior. Não mostre os seus ombros. Cubra-se. Deixe algo para a imaginação. Vista-se de forma modesta. Não seja sedutora. Os homens não se conseguem controlar. Os homens têm necessidades. Parece desajeitada. Solte-se. Mostre um pouco de pele. Pareça sexy. Tenha um olhar sedutor. Não seja tão provocativa. Está a pedi-las. Use preto. Use saltos altos. Está muito vestida. Não use essas calças de treino; parece que você se deixou levar. Seja uma senhora, dizem eles. Não seja muito gorda. Não seja magra demais. Não seja muito grande. Não seja pequena demais. Coma. Emagreça. Pare de comer tanto. Não coma muito rápido. Peça uma salada. Não coma hidratos de carbonos. Não coma sobremesa. Precisa de perder peso. Caiba nesse vestido. Faça uma dieta. Veja o que come. Coma aipo. Coma uma pastilha elástica. Beba muita água. Tem de caber nestes jeans. Meu Deus, parece um esqueleto. Porque é que não come? Parece magra. Parece doente. Coma um hambúrguer. Os homens gostam de mulheres com um pouco de carne nos ossos. Seja pequena. Seja leve. Seja feminina. Seja um tamanho zero. Seja um duplo zero. Não seja nada. Seja menos que nada.”

Ser efetivamente uma senhora, uma mulher ou uma menina, e crescer com estas dicotomias a ditarem o nosso comportamento, não é fácil – e toda a mulher que disser o contrário, mente. São precisos anos de aceitação, de lidar com receios ou inseguranças, e um processo de crescimento que é intrínseco a todas, até conseguirmos criar aquela bolha de amor próprio para fazermos as pazes com o nosso próprio corpo e connosco próprias. Mesmo assim, isso não significa que não tenhamos dias maus. Dias em que saímos à rua com a clara sensação de que o nosso cabelo está péssimo, ou que uma valente borbulha nos nasceu no queixo, ou que de facto comemos mais do que devíamos – porque nos apeteceu – mas que a nossa roupa está mais apertada (e não veio mal nenhum ao mundo por isso!).

Por isso, chamem-me ingénua ou alienada da realidade, mas confesso que me sinto profundamente chocada e envergonhada quando, em pleno século XXI e depois de tanto artigo sobre autoestima e aceitação, sobre o eterno tema de sermos todas diferentes e não termos de obedecer a um protótipo de beleza imposto ou estandardizado, constatar que quem sai desse cânone é violentamente insultado e ostracizado, num exposto e evidente “body shaming”, como aconteceu com a Catarina Raminhos – mulher do humorista António Raminhos – que, numa banal partilha de uma fotografia com o marido, de férias numa praia das Maldivas, viu o seu Instagram ser alvo de críticas e comentários como “estás gorda”; “não devia publicar fotos em biquíni”; ou a típica pergunta de quem está indeciso se a barriga que vê é de gordura ou de quem está nos primeiros meses de gestação: “estás grávida?”.

#ÀFlorDaPele: a pele que há em mim
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Já para não falar da cantora Carolina Deslandes, que após a sua participação no programa Dança das Estrelas recebeu várias mensagens ofensivas sobre a sua prestação devido ao seu peso e corpo. Num ato de denúncia, a cantora decidiu denunciar na sua conta de Instagram o autor de uma das mensagens e o texto que o mesmo lhe escreveu, onde era visível o seu nome e fotografia, deixando-lhe também ela uma mensagem carregada de ironia e humor como resposta. As reações não se fizeram esperar e muitas foram as pessoas que saíram em defesa da cantora, felicitando-a pela forma como decidiu expor estas mensagens e respetivos haters, mas a questão que se coloca é: ainda devíamos nós, mulheres, defendermo-nos deste tipo de acusações? De prestar contas ao mundo? Ou fingir que não nos afetam porque não somos o que os outros esperam que sejamos? É que, sinceramente, o assunto já chateia. Nem este texto devia ter de ser sobre isso, nem a Catarina Raminhos, a Carolina Deslandes ou qualquer uma de nós deveria ter de se justificar por ser como é.

Talvez assim aquele vídeo com a Cynthia Nixon sobre como ser uma senhora, e apesar de ser muito bom, não tivesse tantas partilhas.

Mafalda Santos fez das palavras profissão, tendo já passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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