Ao fim de um mês de confinamento social, já passei por várias fases. Já experimentei o humor como escape da rotina, postando 'memes' em que me ri perdidamente às gargalhas, já fiz pão como forma de terapia – até se acabar o fermento nesta casa – já alterei as rotinas de sono, ficando acordada até demasiado tarde e dormindo uma média de 4 a 5 horas diárias, e já me senti profundamente angustiada com toda a situação, alternando entre o desânimo profundo e a vontade de chorar.

Antes de toda esta situação acontecer, já há muito que se falava nos 'media' em saúde mental, mas poucas eram as pessoas que lhe davam a devida importância ou que, efetivamente, assumiam que problemas como a depressão ou a ansiedade faziam parte do quotidiano das suas vidas. A verdade é que assumirmos que estamos deprimidos ou em estado de exaustão (o conhecido burnout) – seja por que motivo for – ainda é visto como uma fraqueza, algo que nos torna débeis e desvalorizado pelos demais.

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Assumir o burnout em contexto de trabalho, então, é colocar uma sentença de morte nas nossas capacidades profissionais, desvalorizar a nossa performance e abrir um precedente que nos remeterá para a categoria de profissionais de segunda, daqueles que não dispõem de instrumentos e capacidades como a resiliência e a superação de adversidades, que identificam as pessoas fortes, capazes, preparadas e bem resolvidas. Mas seremos assim todos tão capazes, preparados, fortes e bem resolvidos? Ou andávamos a encobrir alguns sentimentos que agora, com esta situação de distanciamento social e de isolamento, vieram mostrar-nos que, afinal, somos todos humanos e que sentir é uma condição primordial da nossa existência?

Os dados que já existiam sobre a situação mental facultados pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental não deixam margem para dúvidas: as perturbações por depressão são a terceira causa de carga global de doença (primeira nos países desenvolvidos), estando previsto que passem a ser a primeira causa a nível mundial em 2030. Atualmente, 165 milhões de pessoas a nível europeu são afetadas por uma doença ou perturbação mental todos os anos. Apenas um quarto dos doentes com perturbações mentais recebe tratamento, e desses, só 10% têm um tratamento considerado adequado. As doenças e as perturbações mentais tornaram-se, nos últimos anos, na principal causa de incapacidade e numa das principais causas de morbilidade nas sociedades.

Se olharmos para os números da realidade nacional, Portugal é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa, sendo apenas ultrapassado pela Irlanda do Norte (23,1%). Entre as perturbações psiquiátricas, as perturbações de ansiedade são as que apresentam uma prevalência mais elevada (16,5%), seguidas pelas perturbações do humor, com uma prevalência de 7,9%. As perturbações mentais e do comportamento representam 11,8% da carga global das doenças em Portugal, mais do que as doenças oncológicas (10,4%) e apenas ultrapassadas pelas doenças cérebro-cardiovasculares (13,7%).

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Números e factos como estes devem levar-nos a pensar que, numa situação como a que vivemos, poucos serão aqueles que sairão dela iguais ao que eram, ou que passarão pela mesma sem experienciar momentos de angústia, de tristeza, sem preocupações, sem medos e sem se sentirem vulneráveis, irritados, desorientados, ansiosos ou perdidos. Portanto – e apesar de ainda continuarmos no ‘olho do furacão’ – e de ser demasiado cedo para termos um vislumbre do que aí vem, a resposta é óbvia: estes números vão aumentar exponencialmente e as perturbações mentais provocadas pela pandemia – seja o stress provocado nos profissionais de saúde, seja o pai de família que teve de fechar o seu negócio, a mãe solteira que perdeu o emprego e a sua única forma de sustento, o casal que não aguentou viver 24 horas sobre 24 horas e se divorciou, o stress que as crianças vivem por estarem privadas de escola e de contacto com os seus amigos, ou o avô isolado e sozinho em casa sem contacto com filhos e netos – todos vamos senti-lo na pele, afetando-nos o ânimo e a lucidez. E não devemos ter vergonha de o assumir, nem de procurar a ajuda necessária para conseguirmos lidar com a situação – até porque ela é nova para todos, e todos, sem exceção, estamos a procurar formas de a ultrapassar e de lidar com a mesma da melhor forma possível.

Existem várias linhas de apoio que se encontram a funcionar e a tentar prestar os seus serviços à população em geral, para as quais poderá recorrer se sentir que necessita de ajuda. E às vezes essa ajuda pode ser, simplesmente, ter alguém com quem falar, uma pessoa a quem ligar, um desabafo, uma palavra amiga, ou uma voz do outro lado com quem possa chorar e partilhar angústias.

O importante a reter de tudo isto: não tenha vergonha. Seja humano.

Linhas de apoio

Ordem dos Psicólogos: 808 24 24 24 / 213 400 250
Sociedade Portuguesa de Psicanálise: 300 051 920
- Santa Casa da Misericórdia – Projeto Acalma – plataforma que permite a marcação online de sessões gratuitas.
- Linha Conversa Amiga: 808 237 327 / 210 027 159

Mafalda Santos fez das palavras profissão, tendo já passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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