Neste último ano, habituámo-nos a fazer reuniões por Zoom com clientes e colegas de trabalho, aprendemos a fazer pão, tivemos aulas de exercício à distância, fizemos compras online sem ter de ir às lojas, mas não nos habituámos à imagem de uma mulher que todos os dias se veste e maquilha como se fosse para o escritório, só porque está em casa.

Tem sido o comentário que mais tenho ouvido ao longo deste segundo confinamento: “Não sei como consegues andar todos os dias maquilhada estando em casa”, e eu, confesso, já reviro os olhos. Frase essa referida sempre por mulheres. Eu brinco e rio, ou relativizo e envio um emoji simpático, mas a realidade é que começo a ter vontade de partir um bocadinho a loiça toda por ser algo sistemático. Apetece dizer: “Como assim? Não me conheciam antes? Por acaso viam-me todos os dias a ir para o escritório desmaquilhada e de cara lavada? Não? Então não sei onde está a surpresa.”

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O facto de estar em casa não altera a minha rotina e se a minha rotina já era acordar cedo, tomar banho, vestir-me, maquilhar-me e ir para o escritório, por que motivo devo alterar aquilo que eu sou, ou o que me caracteriza, só porque estou em casa? Apesar de não admitir, a maior parte das pessoas continua a ver a maquilhagem e o ato de uma mulher se maquilhar como um embuste, como algo que ‘esconde a verdadeira beleza feminina’ – que deverá interpretar-se por ‘ser o mais natural possível’, sem subterfúgios, porque assim sabemos com o que se conta. E eu confesso que este pensamento e esta atitude me deixam bastante revoltada, pois considero-a não só machista como abusadora, principalmente quando me é dirigida por outras mulheres.

Como se eu, para não melindrar ninguém na sua preguiça em se arranjar, ou maquilhar ou outra qualquer coisa para a qual procrastina por estar em casa, tivesse de me anular. Só para não aparecer todos os dias no seu scroll de Instagram tão arranjada. Porque, afinal, ninguém gosta de estar em casa de pantufas e chinelos, cabelo apanhado num carrapito, a comer no sofá e ver outra que representa o oposto disso tudo. Põe-nos frente a frente com as nossas fraquezas, com as nossas piores desculpas.

No último ano, e novamente com este segundo confinamento, habituei-me a receber comentários desses com alguma frequência, todos eles de pessoas que considero amigas, mas que ao fazerem-nos, não se dão conta de que estão a ser inoportunas ou abusivas na sua observação. E é esta ‘normalização’ – que um comentário como este traz associada– que acho importante abordar aqui. Porque se consideramos insultuoso dizer a alguém que é ‘gorda’ ou ‘magra’, se nos revoltamos contra o bullying e o consideramos um ato de violência e um abuso verbal e intimidatório, não poderá um comentário como este ser também um ato de manipulação, uma crítica mais floreada e disfarçada de elogio? A resposta é SIM e tem um nome: negging.

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Negging é uma espécie de insulto de “baixo grau”, chamemos-lhe assim, que é feito de forma subtil e que pretende minar a autoconfiança de uma mulher, podendo o mesmo ser praticamente indetetável. Não se trata de uma mulher ser demasiado sensível, bonita, inteligente, ou competente, trata-se de a descredibilizar. Por isso, quando me dizem “como é que consegues andar maquilhada todos os dias”, na realidade o que eu interpreto é: “Não achas que estás a exagerar ao arranjar-te todos os dias por estares em casa? Onde é que pensas que vais?”.

O negging a longo prazo tem os mesmos efeitos que o bullying, afetando a auto-estima ou, em última instância, levando-nos a mudar comportamentos por influência do que nos disseram. Pode vir de qualquer pessoa: família, amigos, colegas… e a verdade é que não temos de aceitá-lo. E digo isto do alto da segurança dos meus mais de 40 anos, mas tenho plena consciência de que a atitude não seria a mesma se tivesse recebido sucessivos comentários destes com os meus 20.

Quanto a mim, continuarei a maquilhar-me todos os dias, faz parte da minha rotina pessoal. Gosto de sentir que, apesar de estar em casa, não tenho de me apresentar de maneira diferente de como estaria no escritório ou frente a frente com as pessoas com quem trabalho ou com quem privo – seja na minha vida pessoal ou profissional. Isso também me ajuda a ter alguma normalidade por estes dias e a não me deixar afetar por estar há tanto tempo fechada em casa e privada de socialização ‘real’.

Por isso, da próxima vez que me virem maquilhada no vosso feed, façam-me um favor: abram a boca apenas se for para elogiar, caso contrário, continuem o scroll down ou saltem a storie.

Mafalda Santos  fez das palavras profissão, tendo passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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