Representa a transição da infância para a puberdade e a possibilidade de o corpo feminino poder fecundar. Esta passagem, coberta de simbolismo e importância para o corpo da mulher, é um marco na vida de cada menina que se vê confrontada, pela primeira vez, com aquilo que virá a ser a sua vida fértil mensal durante mais de 40 anos.

Falar de menstruação de forma aberta e transparente, sinal de que o nosso corpo funciona como é suposto funcionar, ainda é, aos dias que correm, algo que nem sempre é encarado com ligeireza nem normalidade.

E isso não é bom nem para a saúde da mulher, nem para a imagem que estamos a transmitir às gerações mais novas. E com isto refiro-me, por exemplo, às meninas que estando agora a entrar na fase da puberdade se vêem confrontadas com a menstruação e como lhe devem reagir.

De que serve encararmos o assunto com normalidade quando toda a sociedade nos diz que devemos escondê-lo?

Desde a Antiguidade, em que a menstruação era vista como uma maldição e a mulher menstruada era considerada impura ou possuída por um espírito maligno, o mistério de poder sangrar durante vários dias seguidos sem morrer, equiparava as mulheres a algo demoníaco.

Os tabus menstruais são antigos e universais, havendo registos no Corão ou na Bíblia: “Também a mulher, quando tiver o fluxo do seu sangue, por muitos dias fora do tempo da sua separação, ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que a sua separação, todos os dias do fluxo da sua imundícia será imunda, como nos dias da sua separação." (Levíticos 15)

#ÀFlorDaPele: vamos falar de menstruação?
créditos: foto: Ava Sol/Unsplash

Acabar ou desmistificar mensagens que estão universalmente entranhadas e que relacionam a menstruação com sentimentos de vergonha, de sujidade ou de algo que foi atribuído à condição feminina como uma ‘punição’, não se faz de forma leve nem rápida. Levam séculos e nem mesmo um novo milénio conseguiu ainda dissipá-los. Continuamos a perpetuar às jovens e mulheres de todo o mundo que devem esconder e omitir que estão menstruadas – mesmo que tenham sintomas físicos que as afetam na sua concentração, na escola e no trabalho, e bem-estar geral, como dores de cabeça, ou dores abdominais – remetendo o assunto para algo que deve ser silenciado.

A Organização Não-Governamental Plan International UK, no Reino Unido, escreveu e publicou aquilo que denominou de “Manifesto Menstrual”, um guia muito completo e informativo, que aborda a desconstrução do tema da menstruação, promovendo a quebra sobre o tabu junto de jovens, a forma como o assunto as afeta nas mais variadas áreas da sua vida, incluindo auto-estima, perceção sobre a sua própria imagem, relação com o seu corpo, ou de como a ausência do tema contribui, para aquilo que denominam de ‘period poverty’ (“pobreza do período”) – algo com maior incidência em países do terceiro mundo, onde os cuidados de higiene básicos são uma realidade gritante, impedindo jovens mulheres de realizar os seus direitos em sociedade.

Mas não é só nos países subdesenvolvidos que o tema está coberto de vergonha e silêncio. É inclusive nas sociedades ditas ‘desenvolvidas’, onde há falta de informações precisas sobre menstruação em casa ou na escola, com o objetivo de desmistificar normas sociais e crenças culturais.

#ÀFlorDaPele: mães de adolescentes, estamos juntas?
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Quantas de nós, já mulheres adultas, não crescemos a ouvir as nossas mães e avós a dizer coisas como: “lavar a cabeça com o período faz mal”, ou “não se deve fazer bolos e sobremesas com o período”, mitos que estão  profundamente entranhados na nossa cultura e que ainda subsistem aos dias de hoje. Quantas de nós omitimos que estamos com o período até às colegas de trabalho – mesmo que isso signifique que sofremos com fortes cólicas abdominais – ou evitamos ter relações sexuais durante esses dias?

É ainda desta ONG um estudo, datado de 2017, que conclui que 49% das adolescentes e jovens mulheres, com idades compreendidas entre os 14 e os 21 anos, já perderam pelo menos um dia de escola por causa da menstruação. Segundo a pesquisa, 59% optaram por não contar o motivo da sua ausência em sala de aula e 82% revelaram que escondem os pensos higiénicos e tampões dos seus colegas. E eu pergunto a si, mulher ou jovem que me lê: revê-se nestes comportamentos?

pequenos passos que refletem mudanças relativamente a este assunto. Países como a Coreia do Sul, Indonésia e algumas províncias chinesas, possuem há vários anos aquilo que é denominado como Licença Menstrual, ou seja, a possibilidade de dispensa laboral das mulheres por motivos menstruais. Empresas como a Nike implementaram a nível mundial um código de conduta que prevê que as suas funcionárias possam ausentar-se do trabalho por motivo de dores menstruais.

Em Portugal, a Zoomato foi pioneira nesse sentido, tendo dado a todas as mulheres suas funcionárias – incluindo as transgénero – uma licença menstrual de 10 dias por ano. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Por fim – e porque este texto já vai longo – deixo uma sugestão de leitura para todas as jovens que estão na eminência de serem menstruadas, ou que passaram a estar menstruadas recentemente – mas também para todos os pais, mães, amigas, professores e agentes de saúde pública – que queiram saber mais sobre como abordar este assunto com os jovens sem parecerem demasiado intrusivos, ou sem saberem ao certo que palavras utilizar, ou sequer como abordar o assunto em primeiro lugar.

#ÀFlorDaPele: vamos falar de menstruação?

O livro ‘Um guia para descomplicar porque a menstruação… período … não tem de ser um bicho de sete cabeças”, da Patrícia Lemos, fundadora do Círculo Perfeito e educadora para a Saúde Menstrual e Fertilidade, é uma forma construtiva e positiva de encarar um assunto que faz parte do corpo feminino e que não deve ser visto como pejorativo, mas sim como uma bênção. Uma aprendizagem que deve fazer parte das gerações mais novas, mas também das mais velhas, que cresceram com preconceitos que convém erradicar.

Mafalda Santos fez das palavras profissão, tendo já passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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