O mercado dos “probióticos” na cosmética está projetado para crescer a uma taxa de 12% nos próximos 10 anos, no mercado norte-americano, e parece não haver dúvidas de que a modulação de micro-organismos pode levar a novas formas de melhorar a aparência e o bem-estar da pele através dos cosméticos, sendo que este é, também, um enorme desafio do ponto de vista regulamentar.

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A tendência da microbiota na cosmética interliga-se com uma outra à qual todos nós somos sensíveis: a Personalização. Neste momento, está-se a trabalhar em ferramentas de diagnóstico de microbioma que detetarão alterações na pele antes mesmo delas aparecerem.

No futuro próximo, vamos passar de cosméticos baseados em ingredientes ativos – que representam cerca de 3% das fórmulas – para cosméticos “ecossistémicos”, que não visam apenas as células, e deixaremos de formular produtos que não respeitem totalmente a pele e o seu microbioma, com demasiados conservantes ou pH demasiado elevado. Os produtos terão como alvo o microbioma e as células da pele, e capitalizarão a simbiose entre os dois. Isso permitirá ir mais longe em termos de prevenção, desempenho e eficiência dos produtos.

Mas o que é o microbioma? E a microbiota?

Microbioma é um termo que abrange a microbiota – a flora que vive na nossa pele, composta por biliões de micro-organismos – os seus genomas e as suas condições de vida.

A microbiota é a nossa flora microbiana (10 a 100 biliões de micróbios): micro-organismos, bactérias, leveduras, fungos, vírus... que colonizam a nossa pele e que vivem em equilíbrio com a nossa flora comensal. Esta microbiota é formada desde o nascimento, na superfície da pele, mas também no interior dos folículos pilosos e glândulas sebáceas. Cada um de nós tem uma microbiota diferente, um pouco como se fosse um segundo código genético.

A maioria desses microrganismos pode variar ao longo vida, com base no estilo de vida, na dieta, no meio ambiente e também – no caso da pele – pelo ecossistema local. Embora as estimativas variem, pode haver mais de 1000 espécies de micro-organismos que constituem a microbiota humana.

De acordo com diversos estudos, alterações na microbiota cutânea (disbioses) estão envolvidas na fisiopatologia de diversas dermatoses, tais como eczema, acne, alergias ou caspa – mas também com pele sensível, pele irritada, pele seca ou, até, envelhecimento. Um melhor delineamento do microbioma humano, e suas interações com o sistema imunológico inato e adaptativo, pode levar a uma melhor compreensão dessas doenças, bem como à oportunidade de alcançar novas modalidades terapêuticas. Portanto, o desenvolvimento de abordagens que preservem ou restaurem o equilíbrio natural e individual da microbiota representa um novo alvo na cosmética.

Pre, pro e posbióticos são a mesma coisa?

Não, não são.

Prebióticos são o alimento para a nossa microbiota. A maioria são açúcares que encontramos nas frutas e nos legumes, mas também no mel ou no leite, em algumas águas termais e extratos de plantas. Podem ter a capacidade de alterar a nossa microbiota, promovendo crescimento e atividade de determinados micro-organismos, e evitando o desenvolvimento de outros.

Os probióticos são microrganismos vivos (bactérias, fungos) capazes de repovoar a nossa microbiota.

Os posbióticos são as moléculas secretadas pelos probióticos, que os imitam e que têm efeitos benéficos sobre eles. É exemplo o ácido lático.

Nos cosméticos, os pré e posbióticos podem ajudar a manter um microbioma equilibrado e saudável, mas em relação aos probióticos a sua utilização não é tão linear. Os probióticos são micro-organismos vivos e não é legalmente possível incorporar organismos vivos inteiros num creme, como se faz em alguns alimentos, como os iogurtes. Por uma questão regulamentar, há limite na quantidade de micro-organismos que podem estar nos cosméticos,  uma vez que organismos vivos aplicados diretamente na pele podem originar infeções.

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Assim sendo, o que se usa não são probióticos verdadeiros (porque não têm a capacidade de colonizar a pele), mas sim componentes provenientes de probióticos que podem ser benéficos: os lisados, fermentos ou extratos bacterianos, às vezes chamados de posbióticos. Estes são seguros e podem constituir uma fonte de prebióticos para a microbiota, mas também são interessantes para as células da pele. Alimentam e enviam mensagens químicas aos micro-organismos da pele, mas também às células da epiderme, já que da sua fermentação podem resultar antioxidantes, açúcares, vitaminas…

Como preservar a flora da pele?

O que devemos fazer é usar cosméticos que respeitem a microbiota e não forçosamente adicionar probióticos aos cosméticos, até porque o real valor destes ingredientes não está absolutamente definido nem validado.

Dicas para preservar a microbiota:

  • Evitar produtos de lavagem alcalinos, como sabão (a microbiota prospera em pH ácido, cerca de 5).
  • Evitar produtos demasiado detergentes.
  • Evitar água muito quente.
  • Usar géis bactericidas para as mãos com moderação. Eles impedem que a flora se reconstrua.
  • Manter sempre a pele muito bem hidratada.

Como identificar os cosméticos que têm pré ou pósbióticos?

É de todo o interesse das marcas comunicar estes ingredientes, porque os consumidores estão recetivos e reconhecem-nos como benéficos para a pele. Conseguimos identificá-los na lista de ingredientes, onde aparecem como lisados, fermentos ou culturas, sob designações como lysate, sphingomyelinase, lipotechoinsyre, peptidoglycan, lactic acid, acetic acid diacetyl, lactose, lactis proteinum, inulin, fructooligosaccharides, galactooligosaccharides, alpha-glucan oligosaccharide, lactulose, hyaluronic acid, sodium hyaluronate… entre outras.

E os suplementos alimentares com probióticos ajudam a nossa pele?

À luz da Ciência atual, sabe-se que se a flora gastro-intestinal estiver saudável e equilibrada, isso também acaba por se refletir na pele. Algumas patologias, como a rosácea ou a acne, sugerem estar fortemente associadas à saúde gastro-intestinal. Mas na cosmética ainda há muita coisa para validar, nomeadamente se estes produtos são absolutamente eficazes, e se os suplementos alimentares que nós ingerimos, com pré, pró e posbióticos, têm um verdadeiro efeito na pele.

Farmacêutica de formação e especialista em Cosmética, Joana Nobre trabalha na Indústria Farmacêutica desde 2005. O rigor é a sua imagem de marca, algo bem patente nesta nova rubrica que criou para a Miranda, que incluirá sempre a versão áudio do texto.

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