Sempre tive um cabelo que não é naturalmente liso, apesar de a maior parte das pessoas não saber disso. Todos os dias de manhã, parte da minha rotina era passada a secá-lo e a esticá-lo, o que me roubava uns bons 15 minutos do meu dia. Não é que me importasse, sempre incorporei isso na minha rotina diária como algo tão natural quanto lavar os dentes ou maquilhar-me. Fazia parte de como achava que devia ser a minha imagem, mesmo não sendo essa a sua verdadeira natureza. Na verdade, passei parte da minha vida a domar um cabelo que, não sendo naturalmente liso, também não era naturalmente encaracolado, e essa indefinição, aquele intermédio, que não era uma coisa ou outra, chateava-me.

#ÀFlorDaPele: slow living, slow Beauty
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Sempre fui fã de cabelos encaracolados e o que me frustrava no meu é que a sua ondulação indefinida não se traduzia no caracol perfeito, fechado, em cacho. No fundo, o meu cabelo tentava mostrar-me que há coisas que não se controlam, mesmo quando saímos de casa com o mesmo perfeitamente imaculado e a humidade do ar, ou uma chuvada inesperada, nos mostram que a verdadeira natureza de um cabelo vem sempre ao de cima. Um pouco como as pessoas, não é?

E mesmo assim eu continuei, durante anos, a esticar o cabelo, continuamente, todos os dias. Até que este verão decidi que tinha de sair dessa zona de conforto (ou será zona de controlo?) e aceitar a verdadeira natureza do mesmo. Confrontar-me com essa imagem e abraçá-la. Deixá-lo respirar, longe dos constrangimentos que lhe impunha diariamente. E passei 15 dias de liberdade capilar. Sem chapa para esticar, sem secador, sem ferro para enrolar. E gostei.

Voltei a exibir uma cabeleira cheia de caracóis que, não se traduzindo no cacho perfeito, me dava uma sensação de empoderamento e uma nostalgia de quando tinha 13 ou 14 anos e a minha mãe me levou a fazer uma permanente, pensando eu, já na altura, que sairia de lá com o caracol perfeito — que nem a Nicole Kidman exibia no início da sua carreira televisiva, na série Regresso a Banguecoque. Nunca aconteceu.

#ÀFlorDaPele: tal como a vida, o meu cabelo também não é em linha reta
créditos: foto Terry O'Neill/Getty Images

Voltei à cidade e ao escritório, e o calor ainda se fazia sentir em força. Demasiada força para, depois de 15 dias de liberdade, voltar a estar dependente de um secador, de escovas, de uma parafernália de aparelhos que impunha a mim mesma. Decidi assim perpetuar aquela leveza de férias e assumir a natureza do meu cabelo. Reduzi a rotina de 15 para 5 minutos, basta-me um pouco de espuma na mão e o meu cabelo ganha vida. Transforma-se, cresce em volume, assume o seu poder. E eu olho para ele e gosto. Aprendi a aceitar estas ondas revoltas, indefinidas, cheias de atitude.

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Como posso continuar a querer que algo que tem vida própria se transforme numa linha reta? O meu cabelo pode nunca ter o caracol perfeito e fechado que a Nicole Kidman exibia em 1989, mas posso sempre ter umas ondas perfeitamente despenteadas e igualmente sedutoras que nem a Julia Roberts exibia no filme Pretty Woman, de 1990.

#ÀFlorDaPele: tal como a vida, o meu cabelo também não é em linha reta
créditos: foto Rex (Pretty Woman)

Uma coisa ou outra, não está o revivalismo dos anos 80/90 no comeback das tendências deste outono/inverno? Mesmo que não estejam, não há problema, porque eu, tal como na vida, também nunca fui mulher de seguir linhas retas. Lá está, tal como o meu cabelo.

Mafalda Santos  fez das palavras profissão, tendo passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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