Passei boa parte da minha juventude a ouvir uma máxima que sempre considerei supérflua e desprovida de sentido: “nunca se é demasiado magra nem demasiado rica”, diziam-me, replicando algo cuja autoria atiram à editora da revista Vogue norte-americana, e mundialmente conhecida, Anna Wintour.

#ÀFlorDaPele: o novo ícone de estilo que tem 58 anos
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Não sei se a frase a ela pertence, mas sempre me irritou, por reduzir o princípio da magreza extrema, assim como o da riqueza, a um objetivo que vai para além da razoabilidade e, no caso da magreza, da saúde. Em plena adolescência, e apesar de também eu ser alta e magra, fui impactada por imagens de modelos, nos anos 90, fisicamente débeis, mal encaradas, pálidas, esguias, sem formas e sem cor, como que desprovidas de qualquer sentimento de alegria no corpo e no rosto, porque o que se queria e promovia nas passarelas um pouco por todo o mundo era a metamorfose, a androgenia – mulheres que podiam ser homens – sem seios, sem ancas, sem rabo, sem expressão, pálidas, quase transparentes; e homens que podiam ser mulheres, com olheiras, de cabelos compridos e lisos, numa fusão muito pouco saudável.

Lembro-me, à conta desta imagem completamente distorcida daquilo que era considerado o máximo da “coolness” no mundo da Moda, de como as jovens modelos na altura tinham de caber em tamanhos de roupa completamente surreais para o seu peso e idade, como size 0 – o equivalente a um 30 de calça – ou das inúmeras campanhas e reportagens que denunciavam a forma como muitas, para conseguirem continuar a ter trabalho, se matavam, literalmente, à fome, dias a fio (comiam um maçã por dia e um iogurte) ou engoliam bolas de algodão e bebiam água, para o estômago inchar. Lembro-me de ler todas estas coisas e de achar tudo demasiado louco para haver pessoas que considerassem isso uma forma de vida para estar e permanecer numa indústria a esse preço. Lembro-me de ver um documentário de uma família com uma filha, jovem modelo francesa, que era igualmente bulímica e anorética e de como dias, semanas, meses a fio, aquela jovem se deixou filmar, mostrando cruelmente como eram os seus dias e como a sua deterioração física era visível a olho nu, ao ponto de estar completamente pele e osso e de, mesmo assim, continuar a achar que estava gorda.

#ÀFlorDaPele: diga não à tendência 'Heroin Chic'
créditos: Kate Moss fotografada por Corinne Day

Lembro-me de tudo com uma nitidez muito grande, porque durante anos sofri bullying por ser magra, extramente magra e onde o meu maior desejo era engordar e ter formas e, afinal, o mundo tinha-se transformado no oposto, glorificando tudo aquilo do qual eu sempre fui mas do qual fugia e não conseguia entender – ainda hoje não consigo: como é que se glorifica uma agressão tão grande ao corpo de uma mulher dessa maneira.

É por isso com espanto, mais de 20 anos depois, que constato que não é só a roupa que é cíclica: aparentemente, também aquilo que alguém define como a máxima da beleza feminina tem as suas tendências e, em 2022, o denominado estilo “heroin chic”, tão endeusado nos anos 90, volta a estar na ordem do dia.

#ÀFlorDaPele: os padrões existem para serem quebrados
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Um artigo do jornal New York Post lançou a polémica e centrou a atenção no que já vem a ser visível: o estilo escanzelado, magro e sem formas, está a querer voltar a ser o centro das atenções, deitando por terra o trabalho feito nas últimas décadas  favor da diversidade de corpos, da diversidade de raças e etnias, de haver beleza na pluralidade, na aceitação natural dos corpos e de que o corpo da mulher é naturalmente redondo, das ancas aos seios, passando pela barriga, que nem estátua da Deusa do Amor, Afrodite. O artigo do New York Post diz que os corpos magros e escanzelados são a nova tendência, ao contrário dos curvilíneos, e logo a internet se incendiou, defendendo que os corpos das mulheres não são, nem devem ser, “tendência”.

Inclusive influenciadoras e ex-modelos, como Louise Boyce, “Mama still Got it”, insurgiram-se, com publicações nas suas redes sociais, onde denunciam que o corpo das mulheres não é, nem deve ser, tendência. E que raparigas e jovens que cresceram nos anos 90 com essa referência, ainda hoje sofrem com esses parâmetros irreais de beleza com que foram continuamente confrontadas e que levaram a duvidar do seu valor e a ter problemas de auto-estima.

Durante anos lutou-se contra a imagem da mulher perfeita com padrões irreais de beleza, de medidas simétricas e de fotos trabalhadas e alteradas em Photoshop, ultrapassou-se o conceito de que ser magra ao ponto de se ser um mero cabide de roupa era bonito e esteticamente apelativo. Defendeu-se que mulheres magras ao ponto de se ver os ossos, com olheiras e consumidoras de drogas, não é algo bonito e apelativo de se ver – não é! – e incentivou-se e apelou-se ao body positive. As revistas de moda de todo o mundo cederam e estamparam nas suas capas e editoriais modelos e actrizes plus size, mulheres negras, brancas, com estrias, com celulite, de vários tamanhos e formas, numa afirmação do que é ser-se uma mulher real. No entanto, tudo isso parece estar prestes a evaporar-se, numa memória coletiva, à medida que o look andrógeno e melancólico que predominou nos anos 90 faz de novo o seu comeback, apelando às massas que lhe sigam as pisadas.

Nomes como Kim Kardashian, que perdeu recentemente mais de 13 quilos e que diminuiu as curvas que a fizeram famosa – e onde se especula, inclusive, que tenha revertido as suas cirurgias de implantes de “rabo brasileiro” – apesar de nunca ter confirmado que as fez; ou Bella Hadid que, na Semana de Moda de Paris, se apresentou em palco quase nua, permitindo que vaporizassem e criassem diretamente no corpo um vestido, são alguns dos traços desta nova tendência que vangloria a magreza como expoente máximo.

#ÀFlorDaPele: diga não à tendência 'Heroin Chic'
créditos: Kate Moss fotografada por Mark Wahlberg para Calvin Klein

No Tik Tok, vídeos que incentivam a transtornos alimentares são cada vez mais populares, ou outros que mostram como o 'gap' entre as pernas é algo apetecível de se ter, ou uma maquilhagem de fim de festa, de olhos marcadamente negros, borrados, ou com olheiras, numa atitude de “I don’t care”, bebendo de uma inspiração muito típica da década de 90, onde proliferavam as mini-saias e calças de cintura baixa, ou as sobrancelhas finas – que, neste momento, parece estar a ter aceitação entre a geração mais nova, que lhes copia os passos e a inspiração.

Vamos, à semelhança da roupa, deixar que esta tendência marque a próxima geração? A das nossas filhas? Que mais raparigas cresçam a odiar as suas curvas e corpos, a autoflagelarem-se à fome para caberem dentro de uns jeans de tamanho quase de criança? Que deixem de ter menstruação, que fiquem subnutridas, ou que comam às escondidas para a seguir ir a correr vomitar para a casa de banho, em prol de uma tendência? É isso que queremos e que consideramos visualmente “bonito” e aceitável?

Vamos deixar que esta “moda” regresse?

Seja heroína e chique à sua maneira, mas não a este preço. Não faça do seu corpo uma tendência.

Mafalda Santos  fez das palavras profissão, tendo passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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