O primeiro tema de que vos quero falar: estando nós oficialmente em pleno verão, com os corpos mais desnudos, seja na cidade ou na praia – e em que depois de meses fechados em casa, seja confinados, seja em teletrabalho, queremos é sentir a liberdade, o calor, e aproveitar a estação dos dias longos e despreocupados sem grandes culpas nem restrições – eis que a semana passada me deparei com um longo artigo, na imprensa portuguesa, que relatava um caso real de uma jovem mãe que tinha conseguido perder peso e estava agora na sua plena forma física.

Tudo isto seria de louvar, na minha opinião, não fosse o título do artigo e a menção ao peso da pessoa antes da sua transformação física, que era considerado quase uma aberração: 55 kg. Ou seja, 55 quilos era o peso que esta mulher – sobre a qual o texto se baseava – tinha antes de começar o seu processo de transformação física, no qual conseguiu perder 12 quilos, estando agora na sua forma plena e perfeita: 43 kg.

O título do artigo: “Parecias uma baleia”.

Depois da leitura atenta, parei por momentos e tentei perceber que sentimentos é que toda aquela história me proporcionou.

E só encontro coisas negativas.

Não acho normal que um artigo vanglorie a perda de peso – tendo como exemplo valores como estes – como algo saudável e aceitável. Que se normalize esta mensagem de que 43 kg numa pessoa é algo perfeitamente normal, que não é! E que com os anteriores 55 quilos, antes de todo o processo ela era “uma baleia”. Acho que este artigo, com esta história e da forma como foi escrito e mostrado – mesmo tendo por base o acompanhamento do treino e do plano de exercícios desta jovem mãe, feitos por um profissional – não deve ser normalizado, porque um peso de 43 quilos só é normal para uma pessoa com determinadas características (e mesmo assim tenho sérias dúvidas) e aí entram em linha de conta fatores como a altura e o índice de massa corporal de cada um. Para além disso, que se normalize que só assim esta jovem mãe alcançou a autoestima necessária e que o marido lhe diga que, com 55 quilos, ela parecia “uma baleia”, é ainda mais grave. É, literalmente, o mundo ao contrário.

#ÀFlorDaPele: e tu, também és boa ao longe?
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Numa altura em que tanto se luta por mensagens de aceitação e normalização de todos os tipos de corpos, de que não precisamos de ter as medidas perfeitas para colocar um biquíni e ir à praia, desfrutar sem culpas e amarmo-nos tal como somos, ler um artigo a “normalizar” um peso de 43 quilos é um soco no estômago, um retrocesso. E eu, que já sou uma mulher adulta, que não se impressiona com facilidade, que me aceito tal como sou, fico a pensar no impacto que este tipo de matérias tem sobre as jovens mais impressionáveis, que lutam diariamente contra si próprias porque se acham demasiado gordas, demasiado feias, demasiado “baleias” – quando não o são!

Quando o culto da imagem significa pesar abaixo do saudável, para se ficar bem numa fotografia ou, pior, termos as palavras e os elogios certos por parte do nosso parceiro, para só dessa forma conseguirmos ter amor próprio, se isto não é o mundo ao contrário, não sei o que é. Mas eu, se fosse editora, proibia que jornalistas da minha redação escrevessem sobre casos reais destes, que me parecem tão desenquadrados e fora da realidade, disfarçados de sucesso.

Para segundo tema, e num prisma mais leve e otimista, de que afinal ainda há esperança no mundo, não queria deixar de referir no quão bem impressionada fiquei com a imagem e mensagem que a Andie MacDowell, de 63 anos, deu ao mundo ao aparecer no Festival de Cannes exibindo a sua longa e ondulada cabeleira grisalha, num poderoso statement de que o envelhecimento no feminino não tem de ser decrépito, nem feio, nem escondido ou omitido, antes pelo contrário, pode ser elegante e gracioso, verdadeiro e AUTÊNTICO.

#ÀFlorDaPele:
créditos: Daniele Venturelli/Getty Images

Os que me leem já sabem – ou pelo menos já se aperceberam – que sou muito apologista da verdade e que a mesma aplicada à idade deve ser assumida. O envelhecimento não tem de ser disfarçado ao ponto de nos tornarmos um boneco de cera, só porque nos recusamos a assumir as rugas e porque queremos ser eternamente jovens. Que torço o nariz a tudo o que seja invasivo no rosto, que bato o pé ao botox e que luto pela passagem da mensagem de que a sociedade tem de olhar para o processo de envelhecimento no feminino com naturalidade e sem julgamento. Com naturalidade. Que temos de acabar com a ideia de que “a mulher tem um prazo de validade”, de que só se é bonita na flor da idade e que, passado esse momento, não merecemos a atenção, o desejo, o reconhecimento ou a validação de outrora.

A desmistificação deste preconceito é algo que faz parte das minhas “causas”, pelo que tento educar para a diferença e que nunca me canso de falar. É bom ver que há mulheres como a Andie MacDowell, a Helen Mirren ou a Jodie Foster, que dão o exemplo, em ambiente de passadeira vermelha, onde os holofotes estão postos em si e que demonstram que se sentem bem com essa decisão. E que o resto do mundo aplaude e reconhece.

Afinal ainda há esperança.

Mafalda Santos  fez das palavras profissão, tendo passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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