Faço parte daquele grupo de pessoas que come pizza e chocolates sem que isso as afecte minimamente. Nem em culpa nem em peso. O ponteiro na balança não se move nem um milímetro. Se estiver muito concentrado e stressado para concluir uma tarefa é normal que me esqueça de comer e também me deito em paz se estiver com fome.

Mas adoro comer. Nada me tira o prazer de um brunch ao Domingo em que me posso desdobrar em variadas iguarias. E há certos pecados glicémicos que me cegam e me fazem comer sem um pingo de hesitação.

Tudo isto parece muito bonito, mas sendo homem nunca deixei de sentir a pressão do Universo para ser grande e forte. Era quando fazia as aulas de Educação Física que a minha força em grupo era posta à prova e era aí que eu confirmava que era melhor em provas individuais. Os colegas tinham sempre uma força bruta agressiva que me demovia e desencorajava. Depois, era nas idas às compras que confirmava que precisava de um corpo maior, já que o XXS não fazia parte dos tamanhos das coleções de ready-to-wear daquelas lojas. Tudo melhorou nos anos 90, com a chegada da Zara e restantes primos, mas o estigma ficou. Ser o melhor em atletismo não me trazia grandes benefícios, estava claro. Já viram maratonistas grandes e encorpados? Só os calmeirões é que eram admirados pelas raparigas e podiam vestir roupas que lhes assentavam bem no corpo.

E assim comecei uma luta comigo mesmo, contra a minha magreza, que consistiu em várias dietas gordas que nada fizeram. No meio destas dietas, bastava-me ter um dia mais atarefado e, por isso, comer mal (só o pequeno-almoço ou só duas refeições), que emagrecia imediatamente um ou dois quilos. You wish, né? É por isso que ainda hoje, quando começo a sentir fome, fico também em estado de stress por saber que posso estar a perder peso nesse momento. First world problems, I know!

Eu só vi a luz ao fundo do túnel quando dava aulas de yôga e passei a treinar a permanência em alguns posições musculares. Primeiro, propus-me a conseguir trinta segundos e, mais tarde, um minuto. Este esforço físico adicional aos movimentos de demonstração nas aulas foi o necessário para sentir mais fome durante o dia e, por consequência, comer mais, até que ganhei mais massa muscular. Consegui estabilizar-me nos 54 Kg com 24 anos. Pois é, pasmem, que já cheguei a pesar 49kg com os 173cm que tenho hoje!

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Depois veio a natação e a corrida, que apenas me deram maior definição muscular. Os 54kg mantiveram-se intocáveis mais uns anos até que experimentei fazer escalada, tinha eu já uns 33 anos. A escalada é das actividades que mais gosto, por ser tão natural e por parecer sempre uma brincadeira de crianças que querem subir rochas. A verdade é que é bastante completa no que concerne a trabalho muscular, ao ponto de esgotarem todas as reservas de energia. Comia sempre uma tosta de manteiga de amendoim após cada treino e deve ter sido esta rotina que me fez crescer até aos 58kg. E foi curioso que após ter parado com esta actividade e ter voltado aos 54kg numa altura em que tive maior volume de trabalho (e menos disponibilidade para comer) bastou voltar a alimentar-me como antes para conseguir estabilizar-me nos 56kg, sem qualquer esforço.

Entretanto, no ano passado, voltei a nadar. E como tinha de viajar muitas vezes para o Porto, enquanto lá estava, fazia BootCamp. Cresci mais um pouco, alguns músculos desenvolveram-se mais, mas não saí do mesmo peso ou então ainda consegui mais um quilo, que não levei muito a sério. Regressei à base em Lisboa e mantive-me só na natação uns meses até que passei a frequentar também as aulas de Xtremefit. Estas sessões de Hight Intensity Interval Training (HIIT) consistem num circuito de dez exercícios que executamos intensamente durante 45 segundos, tendo 15 segundos de descanso entre eles. O nível de esforço é tão grande ou maior que os treinos militares, sendo esta a aula mais dura naquele ginásio. Depois, ainda me listei no Circuito Total Integral, que me espantou por ser só frequentado por velhinhas. Quando dei por mim, já não podia fugir e só continuei a ir porque fiquei de rastos com a primeira aula. Aquele percurso de 10 máquinas de pesos é feito de acordo com a evolução de cada um e os pesos vão sendo ajustados, trabalhando todos os principais grupos musculares. Por isso, em cada aula, tentava aumentar o peso para levar os músculos ao limite. Foi assim que com duas aulas destas por semana, mais duas de Xtremefit e alguma natação cheguei aos 60Kg. Nem queria acreditar quando vi os dígitos na balança. Tantos anos de esforço a traduzirem-se num número que nunca havia alcançado antes! Estava descoberta a minha receita mágica: muito exercício intenso, muita fome saciada com muita proteína et voilá!

E depois veio o Crossfit. Quando comecei os treinos militares no Porto já me estava a preparar física e mentalmente para este empreendimento, o supra sumo dos desportos de alta intensidade. E depois de ano e meio cá estou eu, a ferro e fogo a levantar barras, a subir cordas e a pegar em kettlebells como se fossem bolas de lã. Em duas semanas cheguei aos 62Kg. O quê, como? Nunca suei tanto num treino e esta modalidade tem a capacidade de surpreender os músculos em todas as aulas. Os músculos e a mim, que nunca tive perfil para estar a fazer sempre os mesmos treinos todos os dias. Não há uma aula igual à outra e no dia seguinte as dores acusam sempre a dureza do treino. Tão bom!

E agora? Em pouco tempo cresci 4 quilos. Se continuar esta rotina é provável que vá ganhando mais peso. Há calças que já deixei de usar e há outras - que sempre estiveram paradas no guarda-roupa - a que passei a dar uso. E se não parar de crescer? E se não gostar do corpo que vou ter? Terei saudades de ser magricela? Agora que me estou a aproximar da forma física dos meus sonhos, apercebo-me que continuo a ser a mesma pessoa. Gosto mais de mim, sim, mas continuo a sentir-me desejado como antes. Também continuo a gostar de ver o estilo de homem Saint Laurent ou Raf Simons onde a magreza é rainha. Na fantasia que criei, esta quimera que estou a conquistar, ia garantir-me um altar próprio, onde passaria a ser considerado hot stuff. Mas tanta coisa já mudou nos padrões de beleza masculinos que hoje em dia, sinceramente, só tenho de deixar o hot stuffness ser uma atitude a adoptar, seja magro, seja gordo, seja musculoso. Talvez a maior conquista de todas, nesta odisseia, foi ter descoberto que fui capaz de descodificar uma equação impossível dentro de mim. E se consegui o dom da transformação, consigo tudo e mais um par de botas nesta vida! Com um tamanho acima, de preferência, com maior garantia de servirem à primeira.

Bruno Reis, colaborador da Miranda, é o fundador e diretor criativo da Teeorema, marca de luxo de T-shirts.

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