Por mais que nas fotos que posto no Instagram me digam que estou linda e serena, eu sinto-me inquieta e abatida.

Ao fim de 44 dias de confinamento, sinto que as minhas forças e resiliência emocional andam a bater no fundo. Eu, que sempre fui uma pessoa que não se importava nada de estar em casa e de passar um fim-de-semana inteiro indoors, anseio por poder sair, apanhar sol, passear, ver gente, conviver com os amigos, almoços e jantaradas, cafezinhos na esplanada e convívio social. Esta semana dei por mim a pensar que Lisboa já deve estar toda florida, e de jacarandás em flor, e eu nem lhe sinto a cor, o cheiro, não vislumbro os acordes da Primavera que está aí e que chegou há mais de um mês, embora poucos dêem por ela.

Em 44 dias de confinamento, os meus hábitos de Beleza mudaram – não necessariamente para melhor – e por mais que tente evitar cair no conformismo, a verdade é que me é cada vez mais difícil encontrar a força necessária para todos os dias encontrar motivação. Se durante as primeiras duas semanas os ânimos ainda estavam elevados, ao fim de mês e meio em teletrabalho e com duas crianças em casa, o desgaste e a pressão a que fui sujeita deixaram-me com elevados níveis de stress e de cansaço. E tudo isso reflete-se em grande esplendor no meu rosto e nos olhos, esse espelho da alma.

A quarentena trouxe-me insónias e uma média de cinco horas de sono por dia, porque continuo a acordar todos os dias à hora a que o fazia antes de tudo isto acontecer – embora me deite sempre de madrugada. Não há tisana que me valha ou chá de alface como mezinha de bons sonhos, e recuso-me a tomar medicação para algo tão básico da natureza humana como dormir.

O meu couro cabeludo estalou todo – apesar de continuar a utilizar os mesmos produtos que utilizava antes – e a minha pele ficou seca e ressequida, apesar de continuar a hidratá-la como sempre fiz. Faço uma alimentação saudável e diversificada, rica em fruta e vegetais, embora tenha noção de que no último mês comi mais vezes chocolate (ou pão) do que devia. Não se pode ter tudo, não é?

Continuo a tomar a minha suplementação de vitaminas – como a D – tão essencial numa altura em que estamos privados dos níveis de sol necessários para a sua produção, e cuja ação influi diretamente sobre o reforço muscular, imunitário, cardiovascular, neurológico e até inflamatório. Mas sinto que nada disso faz efeito. Eu, pelo menos, não o vejo.

E as longas horas de trabalho, cujo limbo se imiscui entre refeições e se prolonga para lá do número de horas razoável por dia, trocando as voltas ao nosso organismo e ao que é saudável ou aceitável.

#ÀFlorDaPele: não são dias fáceis, estes que vivemos
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E depois, há outra coisa que me faz ter sentimentos ambíguos nesta quarentena: passa por, nas redes sociais, todos darem aquela ideia de estarem ocupados a fazer alguma coisa de verdadeiramente im-pres-cin-dí-vel. Que se reflete, por exemplo, na quantidade de 'lives' que decorrem sempre que se entra no Instagram – ou nos planos de treino que insistem em mostrar e cumprir escrupulosamente, sempre alegres e motivados – enquanto eu me arrasto pela casa. Ou quem se dedica às arrumações, ao bricolage ou à culinária – e aqui acuso a minha parte de mea culpa – como se todos tivéssemos de ter projetos diários, diferentes, que demonstrem que somos ativos e que mesmo de quarentena não nos deixamos afetar pela agressividade psicológica que é estarmos confinados durante tanto tempo. Sou só eu que me apetece desaparecer sem dar explicações a ninguém?

Bem sei que cada um lida com a situação da melhor forma que pode. Se calhar eu é que estou a ficar demasiado rabugenta, cansada, sensível com este confinamento forçado que, mesmo após o levantamento do estado de emergência, se prolongará muito além do desejável. Talvez seja essa noção da realidade que me tira o sono e me suga a alma e a dita Beleza. Até lá, desde que não me falte o vinho, acho que ainda aguento mais umas semanas.

Mafalda Santos fez das palavras profissão, tendo já passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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