
Linda Evangelista, 56 anos, assumiu recentemente na sua conta de Instagram, que foi “desfigurada” por um procedimento estético denominado CoolSculpting. Para quem não sabe ou se lembra, Linda Evangelista foi uma das principais supermodelos de Alta Costura, da passerelle e das capas de revista dos anos 90.
A par das suas colegas da época – Claudia Schiffer, Christy Turlington, Cindy Crawford, Helena Christensen, Naomi Campbell – foi das primeiras modelos catapultadas ao estatuto de superestrelas. Eram lindas, magras, ganhavam milhões e despertavam o interesse e o culto de pessoas em todo o mundo.
Em plenos anos 90, década em que ainda não havia redes sociais nem smartphones, nomes como o de Linda Evangelista eram as principais figuras públicas, verdadeiras estrelas que todas as semanas e em todo o mundo tinham o seu rosto na capa de uma revista de moda e lifestyle, e eram acarinhadas pelos principais criadores, fotógrafos, editores de moda.
É de Linda Evangelista a célebre frase “Não saio da cama por menos de 10 mil dólares”, tendo causado um grande burburinho na altura. Ela era a modelo cuja beleza fazia lembrar o glamour das atrizes italianas dos anos 50 e 60 –apesar de ser canadiana – sendo igualmente conhecida por ser camaleónica e altamente mutável. Os fotógrafos adoravam-na, não havia personagem que não encarnasse.
Mas Linda Evangelista envelheceu e, ao contrário das suas ex-colegas de passerelle, não manteve a sua carreira tão ativa nem foi publicando nas redes sociais as parcerias que ainda mantinha e os trabalhos realizados. Afastou-se e pouco mostrava de si, até que recentemente decidiu vir a público e contar a sua história: a de que um procedimento estético a deixou desfigurada e com hiperplasia adiposa paradoxal, ou HAP. Num post emotivo, Linda revelou que não foi alertada para as consequências do procedimento, tendo-se submetido a duas cirurgias corretivas sem sucesso.
Como consequência deste procedimento, que Linda refere que a deixou “irreconhecível”, entrou numa espiral de depressão e profunda tristeza ao longo dos últimos cinco anos, o que a levou a afastar-se da vida pública e a tornar-se uma reclusa na sua própria casa.
A criolipólise é um procedimento cosmético de emagrecimento, que congela a gordura corporal, o tecido adiposo, em locais de difícil remoção. Conhecido como CoolSculpting, tem como objetivo separar a gordura dos tecidos a baixas temperaturas, eliminando-a sem necessidade de cirurgias e garantindo a destruição de 20% a 25% das células de gordura da área tratada.
O que aconteceu com Linda é que a houve uma reação adversa que lhe provocou o contrário do resultado esperado, ou seja, as células de gordura aumentaram em vez de encolherem, formando uma área endurecida de gordura localizada. Apesar de rara, esta complicação pode surgir entre 8 e 24 semanas após o procedimento e ocorre na área onde normalmente a criolipólise foi realizada.
Na mensagem publicada na sua conta pessoal, a ex-modelo afirma que já se submeteu a duas dolorosas cirurgias corretivas, sem sucesso, e que por causa desta situação ficou sem trabalhar nos últimos anos, enquanto as carreiras das suas colegas prosperaram.
Na semana passada, Linda decidiu sair do escuro e assumir o que lhe aconteceu, esperando que a sua história seja não só um alerta para outras mulheres que estejam a pensar em submeter-se a procedimentos estéticos – para que se informem devidamente de todas as consequências que daí podem advir – mas também constituiu um passo gigante ao falar abertamente da luta contra a depressão em que mergulhou, passando a assumir e a falar, na primeira pessoa, da batalha travada ao longo dos últimos anos.
Neste momento, corre num tribunal de Nova Iorque um processo contra a empresa detentora do procedimento estético, a Zeltiq Aesthetics, no valor de 50 milhões de dólares.
Já eu acho profundamente inspirador que uma mulher que foi um ícone de beleza mundial, desejada por milhões, cuja vida era regida pela sua beleza e perfeição física, assuma, com dor mas com verdade, o que lhe aconteceu. Acho que não há nada mais poderoso do que um testemunho com verdade, quando se assume os erros que se cometeu, mas se decide ir em frente, lutando de cabeça erguida contra os nossos demónios, perante o mundo inteiro, e sem nos deixarmos vencer por eles.
Quem nunca errou que atire a primeira pedra. Mas assumir que se errou, levantar do fundo do poço e seguir em frente, não é para todos. Linda Evangelista pode não ser a imagem da perfeição física que durante anos vivenciou e sentiu que era, mas terá sempre o poder de inspirar mulheres de todo o mundo a falarem abertamente das suas histórias – mesmo as que correm mal.
A supermodelo que assumiu em tempos que não saía da cama por menos de 10 mil dólares também assumiu, recentemente, que passou os últimos anos sem trabalhar e também ela sucumbiu à pressão de continuar, mesmo depois dos 50, a ser magra, jovem e bela. Muitos poderão dizer que é karma, altivez, que teve o que merecia, que a vida dá muitas voltas e é feita de ciclos.
Que a história de Linda nos sirva como uma grande lição: a de normalizar o envelhecimento como algo natural. Talvez aprendamos todos que a busca pela perfeição física e juventude pode acarretar um preço demasiado alto a pagar, e aceitemos que envelhecer é uma bênção.
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