Há já algum tempo que noto a minha pele baça e sem brilho. Os últimos dois anos não foram fáceis para ninguém e tiveram repercussões não só no meu peso – que, felizmente, consegui recuperar – mas também no meu rosto, que noto começar a dar sinais de envelhecimento.

OK, eu sei, é natural aos 43 anos o rosto dar sinais de envelhecimento, mas porque sou avessa aos ‘fillers’ e a procedimentos invasivos, achei que estava na hora de pedir aconselhamento a um profissional que olhasse para o meu rosto natural e me dissesse o que preciso de fazer para garantir que os efeitos da gravidade e da passagem do tempo cheguem o mais tarde possível.

Não sei se a Siri ou o Mark Zuckerberg estavam à escuta ou se a inteligência artificial leu o meu pensamento, mas enquanto fazia ‘scroll’ pelo ‘feed’ do Instagram, fui impactada por uma promoção de um tratamento facial com radiofrequência e ionização, que me pareceu sugestivo. Decidi experimentar e inscrever-me. Mal não faria, o preço era acessível à minha carteira e, acima de tudo, teria um momento só para mim, um presente pessoal, com aconselhamento personalizado.

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Preenchi os dados e aguardei que me contactassem. Aconteceu logo no dia a seguir, com um telefonema extremamente simpático, onde me fizeram um breve questionário sobre a minha pele e me explicaram o que me iriam fazer durante todo o procedimento. Tudo me agradava, parecia ouro sobre azul aos meus ouvidos: 90 minutos que incluíam diagnóstico da pele, tratamento com radiofrequência, firmeza, luminosidade, tratamento de papos, rídulas e olheiras, e um efeito ‘lifting’ – todos os meus principais problemas pareciam ter encontrado solução e eu aguardava, ansiosa, o dia da marcação.

Durante a marcação telefónica, foi-me ainda dito que se tratava de um preço promocional, para experimentação e angariação de novas clientes para a clínica, mas que nada me seria “impingido” nem teria qualquer obrigatoriedade de fidelização. Excelente, pensei. Vou experimentar e, se gostar, posso até dar continuidade; caso contrário, amigos como antes.

O desejado dia chegou. Deparei-me com uma clínica num bonito edifício bem no coração de Lisboa onde, após preenchimento de ficha, fui encaminhada para um gabinete com uma técnica que me faria todo o tratamento. Ali e durante mais de 45 minutos, a mesma fez-me um inquérito exaustivo à pele e a todo o tipo de produtos que utilizava na mesma, enquanto preenchia uma ficha. Mais outra. Senti-me ligeiramente devassada na minha intimidade, confesso, assim como uma ligeira vergonha por limitar-me a tratar da pele diariamente, mas sem excessos no que às marcas que utilizo no rosto diz respeito. O mesmo se aplicava à maquilhagem. Enquanto isso, a pessoa em questão ia falando e falando e falando, o tempo passando e o procedimento de 90 minutos já tinha, pelo menos, levado metade só em conversa.

Detetados os principais problemas – hidratação, rugas de expressão, falta de firmeza junto aos lábios e luminosidade no rosto em geral – eis que tinha chegado a hora de começar o “me time” que tanto ansiei durante dias.

Deitada numa marquesa, fui exposta a um tratamento de facelifter que incluía um aparelho de mão multifunções, que me fazia uma limpeza profunda e me massajava o rosto em profundidade, mediante a aplicação de produtos que, segundo a técnica, permitiam chegar às camadas mais profundas da pele – algo que nenhum outro fazia. E só isso me permitiria combater os vincos que já começo a ter nos lábios e no chamado, na gíria, “bigode chinês”, e com uma caneta biónica tratar toda a região periocular, diminuindo papos, rugas e proporcionando o tal “efeito lifting” que foi, de facto, imediato.

Quando a técnica me fez primeiramente metade do rosto e me mostrou as diferenças entre o lado direito e esquerdo, as mesmas eram visíveis, é um facto. E eu fiquei animadíssima com a possibilidade de ter descoberto algo a tempo de minimizar de forma natural e segura os efeitos da passagem do tempo – sem injeções nem preenchimentos pelo meio. Isso e, claro, inúmeros elogios que a mesma me ia dando aos resultados que estava a obter da minha ‘matriz’ natural – entenda-se rosto – que, apesar de tudo, ainda estava em muito bom estado (mesmo com marcas de cremes baratas!).

Qual é o ego que não gosta de, uma vez ou outra, ouvir elogios? Pois.

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Mafalda Santos

Terminado o tratamento, era hora de voltar à realidade. Vi resultados imediatos no rosto e estava curiosa em saber quanto é que continuar a fazer este tratamento me iria custar, sem ser em preço promocional. Enquanto isso, a técnica ria, brincava, continuava a fazer-me elogios e dando a entender que sem aquilo o meu rosto iria descarrilar rapidamente em pouco tempo, porque o tempo é mesmo um exterminador implacável na vida de uma mulher com mais de 40.

O que veio a seguir foi uma proposta de compra de todas as maquinetas portáteis que a mesma me colocou no rosto ao longo da sessão e que eu teria de adquirir – juntamente com um pack exaustivo de cremes – para dar continuidade a tudo o que me foi feito em gabinete, mas em casa. Isto se não queria ver o meu rosto descarrilar.

Estamos a falar de valores que correspondem à mensalidade de um carro, por exemplo, durante quase tanto tempo quanto o normal que pagamos por um. Uma espécie de “tens a opção: ou compras um carro novo, ou tens uma cara nova”. E tinha de dar a resposta naquele momento, porque aquela oportunidade era tão boa e tão incrível, e eu tinha gostado tanto, mas tanto, que nem pensar em sair daquele gabinete sem me comprometer com isso.

Disse-lhe, educamente, que aqueles valores eram demasiado elevados e um pouco acima daquilo que tinha em mente e que, por isso, agradecia, mas estava fora de questão. Novamente, a simpática técnica, porque tinha reparado que eu tinha gostado tanto do tratamento e o mesmo tinha chegado no momento certo à minha vida, levantou-se, fechou a porta e mostrou-me uma segunda tabela de preços, bem mais acessíveis, mas com mensalidades ainda mais extensas.

Estava tudo ali, a valores que eu já conseguia pagar e suportar, durante quase uma década, entenda-se, para ter um rosto decente, levando as maquinetas de última geração para casa e fazendo eu mesma um tratamento que me endividaria durante os próximos anos. Mas que poderia amortizar a qualquer momento, repetiu demasiadas vezes.

Perante o absurdo de valores e o tempo que estava estimado para cada possibilidade de mensalidade, saquei rapidamente da calculadora do telemóvel e fiz as contas aos valores totais.

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Tentei dizer que ia para casa pensar, ou que queria pedir uma segunda opinião a alguém entendido na área da cosmética e beleza. A resposta que me foi dada foi que, a partir do momento em que saísse daquele gabinete, já não poderia voltar a usufruir daquelas propostas de mensalidade, que eram valores promocionais. E foi nessa altura que agradeci e disse que não, que não gosto que me imponham pressão sobre uma decisão que me pode hipotecar o futuro a médio-longo prazo e que quando marquei aquele tratamento tinha-me sido garantido que não iria ser obrigada a comprar nada, nem teria qualquer obrigatoriedade de fidelização.

A técnica lá percebeu que da minha parte não ia conseguir vender o produto, resignando-se e lamentando frequentemente que era uma pena não dar o devido cuidado que um rosto tão bonito merecia.

Saí da clínica com um rosto luminoso, é certo. A pele esteve macia e nutrida o dia todo e isso notou-se. Andei sem maquilhagem e de cara limpa e senti-me bem. Mas fiquei verdadeiramente aliviada por ter resistido a uma abordagem tão agressiva de marketing. Incómoda, mesmo.

O que se passou naquele gabinete foi uma verdadeira lavagem cerebral, com uma promessa de retardamento da passagem do tempo que nos pode custar anos de vida – não tirar. Eu não funciono assim e detestei sentir aquela abordagem de péssimo marketing de vendedor comercial, em que te envolvem com um misto de elogios e de pressão.

Porque a verdade é que eu até ia recetiva com a possibilidade de experimentar algo que, caso gostasse, de dar continuidade e de forma voluntária e de bem-estar, fazer regularmente. Mas o que se passou foi a antítese disso. Não se tratou de um “me time” relaxante, de uma experiência, tratou-se de uma venda com experimentação. Não me foi dada a possibilidade de um tratamento de 90 minutos a tratar de mim, já que passei mais de metade a ouvir uma vendedora com conhecimentos de beleza e cosmética que me julgava pelas escolhas feitas, como se tudo o que tinha feito até àquele momento estivesse errado.

Até podia estar, mas tomar decisões sob pressão que possam hipotecar a vida nunca é um bom negócio. Seja em relação ao rosto ou na vida em geral.

Por isso, prefiro continuar com a minha ‘matriz natural’ que, como a própria disse, até nem estava nada mal e acreditar que ainda vou a tempo de descobrir o tratamento perfeito sem ter de vender um rim.

Mafalda Santos  fez das palavras profissão, tendo passado pelo jornalismo, assessoria de imprensa, marketing e media relations. Acredita em quebrar tabus e na educação para a diferença, temas que aborda duas vezes por mês, na Miranda, em #ÀFlorDaPele.

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